O Brasil precisa repensar a formação do engenheiro e investir mais em P&D, dizem especialistas. Representantes da indústria da mobilidade se reuniram em Campinas nos dias 6 e 7 e discutiram os aspectos que empatam o crescimento da inovação no País

“Inovar é muito mais do que criar”. Foi o que disseram especialistas que participaram do 10º Simpósio SAE BRASIL de Powertrain que reuniu mais de 200 profissionais da indústria. O encontro analisou a situação da engenharia nacional e constatou que Brasil é um ótimo criador de componentes e sistemas, mas precisa aprender a projetar funções.

Segundo José Guilherme da Silva, responsável pela área de pesquisas, inovação e engenharia de materiais da América Latina da Fiat, quando se pensa em fazer mais é importante definir mais do quê? “Não adianta a empresa achar que precisa apenas fazer, é preciso ter metas objetivas. Se não sabemos exatamente aonde chegar, qualquer caminho serve”, enfatizou.

Para o executivo, a nossa engenharia é muito competente quanto à capacidade de melhorar tecnologias já existentes, porém quando se trata de desenvolver coisas novas, deixa a desejar. “Se quisermos estar na vanguarda precisamos investir no longo prazo. É preciso incentivar uma engenharia inovadora e criadora e para isso temos que pensar em longo alcance, diminuir o atraso científico e melhorar a qualidade da formação da mão de obra”, argumentou.

Rogério Vollet, gerente de engenharia líder global da GM, afirmou que a nossa indústria ainda depende muito de inovações desenvolvidas em outros lugares. “Apenas replicamos o que é criado em outros países. Não adianta desenvolver um produto fantástico, pois se ele não der retorno é no máximo uma invenção. Inovação dá retorno”, acrescentou.

O diretor-executivo da Ernst & Young Terco, Caspar Bart VanRijnbach, acredita que o Brasil é capaz de inovar e se diferenciar, basta investir em caminhos para melhorar e facilitar a vida da indústria. “Porém é importante deixar claro que inovação e criatividade não são as mesmas coisas. Para inovar é preciso ter processo, governança, definir metas e objetivos e não apenas ter criatividade”, argumentou.

Para Vollet de nada adianta criar se não planejar a transição de onde está e para onde quer chegar. “O Brasil tem um problema de time, chegamos tarde a muitas coisas, é preciso ter foco e objetivo. Inovação é muito mais do que desenvolver um produto”, avaliou.

De acordo com o engenheiro é primordial avaliar como vai vender e quem vai comprar, ou seja, é preciso saber exatamente para onde e para quem vai o produto. “Se esses pontos não forem avaliados todo o planejamento será em vão”, alertou.

Willian Calegari, diretor-executivo da área tributária da Ernest & Young Terco, alertou lembrando que as empresas deveriam aproveitar mais os incentivos da Lei do Bem, em que as corporações podem reverter os impostos pagos para investimentos em desenvolvimento em tecnologia.

Willian Calegari, diretor-executivo da área tributária da Ernest & Young Terco, alertou lembrando que as empresas deveriam aproveitar mais os incentivos da Lei do Bem, em que as corporações podem reverter os impostos pagos para investimentos em desenvolvimento em tecnologia.

O professor Sergio Queiroz, coordenador adjunto de pesquisa para inovação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) afirmou que o gasto empresarial com P&D no Brasil ainda é muito baixo, e o governo tem investido mais nesse aspecto. “É preciso engajar esses dois esforços para incentivar a produção científica no País, pois temos mais dinheiro do governo para investir do que projetos desenvolvidos pelas empresas”, disse Queiroz.

O sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, Valter Pieracciani, afirmou que inovação é mais do que uma questão de sobrevivência, para ele é preciso buscar os incentivos do governo para inovação, e assim promover mais desenvolvimento econômico, margens sustentáveis e competitividade. “É importante deixar claro que inovação não se refere apenas ao lançamento de produtos e serviços”, explicou o executivo. Ele também mostrou que em 2011 o governo realizou renúncia fiscal de aproximadamente R$ 187 bilhões, mas apenas R$ 1,7 bilhão foi referente a investimentos em P&D. “O governo tem dinheiro. As empresas precisam procurar por ele”, afirmou.

Educação – Os representantes da indústria e da academia também abordaram a questão da formação do engenheiro. Segundo Queiroz, o Brasil forma 1,35 engenheiros para cada 10 mil habitantes. Para o professor é preciso melhorar a formação dos recursos humanos no Brasil, pois é com eles que está o futuro da nossa indústria.

Segundo Silva é preciso repensar a formação do engenheiro no Brasil. “Os nossos engenheiros precisam ser mais criativos do que os engenheiros dos outros”, recomendou.

Para Décio Maia, gerente de desempenho de produtos e motores do Centro de Pesquisa da Petrobras, é preciso incentivar a união da indústria automotiva e a indústria de petróleo com a universidade. “Esse segmento da mobilidade é algo novo para essas instituições que sempre foram pouco demandadas”, complementou.

O 10º Simpósio SAE BRASIL de Powertrain divido nos blocos Motores Ciclo Otto e Transmissões, contou com palestras técnicas, painéis de debate e curso de transmissões. Essa programação permitiu aos participantes terem acesso e conhecimento das principais e futuras tecnologias do mercado e atualização profissional.

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