‘Intralogística e produtividade’ – por Edson Carillo

A automação na movimentação e armazenagem de materiais é algo já bastante debatido, mas, ao analisar sua implementação parte dos profissionais frequentemente ainda deixa de lado uma questão fundamental.

Se a tarefa não agrega valor ao produto estamos falando de uma perda, e o ideal seria que ela não existisse. Melhor do que ter um armazém é não ter nenhum. É a partir desse princípio que deve começar um estudo de otimização da movimentação e armazenagem de produtos dentro de instalações, a chamada intralogística.

O fato é que não há como fazer o produto chegar ao cliente sem transportá-lo nem atender prontamente um pedido sem algum estoque disponível, e isso nos leva ao foco dessa questão – a produtividade. Automatizar pode ser um bom começo, mas tenha em mente que investir em uma perda raramente será a solução para melhorar a produtividade do seu negócio.

Em logística não se consegue melhorar sempre, isto é, se eu obtiver ganhos de um lado, provavelmente vou perder do outro. Conhecidos como “trade-offs”, ou trocas compensatórias, ao melhorar a ocupação de um determinado centro de distribuição, por exemplo, sua seletividade será prejudicada. Se quiser reduzir despesas com transporte, provavelmente, aumentarei as despesas com armazenagem em prejuízo do nível de serviço aos clientes, e assim por diante.

A complexidade das operações requer técnicos e gerentes preparados para assumir a logística em nossas empresas, gente capaz de fazer mais do que apenas despejar dados em planilhas eletrônicas ou usar softwares otimizantes para obter a respostas aos problemas.

É fácil encontrar no mercado sofisticados sistemas de movimentação e armazenagem de materiais de alta tecnologia e automação, que nos fazem pensar em como seriam úteis em nossas empresas. Mas para a aquisição de um transelevador, um sistema de sortimento, uma empilhadeira ou o mais simples dos transpaletes, deve-se ter mais que um bom motivo.

A compra de um equipamento de movimentação de materiais não deve ser considerada um fim, mas um meio, uma ferramenta para auxiliar um estudo já desenvolvido do sistema logístico, este sim a melhor alternativa técnica, operacional e econômica para o desempenho que se quer atingir.

No caso particular da intralogística, a aquisição de um sistema mais complexo, ou qualquer equipamento deve começar pela justificativa técnica, isto é, pela confirmação da capacidade de atendimento da necessidade operacional que se tem. E sempre considerando inicialmente a possibilidade da eliminação da causa dessa necessidade, isto é, sua racionalização.

Comprovado o requerimento técnico e a viabilidade econômica, não se pode esquecer que a dinâmica do negócio pode muito bem alterar completamente as premissas previamente utilizadas no estudo. O ambiente empresarial muda constantemente e a capacidade de adaptação a mudanças é que permitirá a sobrevivência e a prosperidade do negócio.

É importante, ainda, ter em mente que em geral sistemas automáticos tendem a gerar certa falta de flexibilidade, o que pode comprometer sua adoção em ambientes muito diversos e imprevisíveis. Sem citar nomes, posso afirmar que são várias as empresas que investiram pesadamente em automação da intralogística e depois acabaram por “desligar” seus equipamentos por conta da mudança das tais premissas consideradas na fase inicial do projeto.

Existem três razões básicas para considerarmos o investimento na automação de nossa intralogística, mesmo quando este não se justifica economicamente. Por questões de segurança, quando não é recomendável pessoas na área de operação por insalubridade, periculosidade ou mesmo questões de sigilo, comuns no meio militar; por escassez de espaço; ou quando o fluxo (through-put) é muito elevado, isto é, quando mesmo com a alocação de mais recursos (como mão de obra, por exemplo) não há capacidade para atender o volume de movimentações.

Enfim, na avaliação de alternativas de melhoria no centro de distribuição não se pode desconsiderar o papel decisivo do gestor logístico na otimização do resultado das operações, eliminando atividades que não agregam valor. E somente depois de um estudo considerar a aquisição da solução logística que apresente o melhor retorno.

Edson Carillo, co-chairperson do Comitê de Logística, Manufatura e Qualidade do Congresso SAE BRASIL 2015, é engenheiro de Produção Mecânico, acumula mais de 25 anos de experiência em Supply Chain Management – Logística e coautor de diversos livros.



Leia Também:
Anterior:

Próxima: