‘O Roubo de cargas no Rio de Janeiro. A volta do Faroeste?’ – Por Newton de Oliveira

Quem é da geração dos anos 70, pelo menos alguma vez na vida assistiu a um filme de bang-bang onde entre os muitos enredos, estava o do roubo de gado ou de cargas por quadrilhas organizadas no processo de expansão do Oeste norte-americano.

O Rio de Janeiro do século XXI parece repetir, em tons de tragédia, a história dos tempos do faroeste. Segundo matéria do portal UOL “De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o mês de janeiro de 2017 já acumula 693 assaltos a cargas –109 ocorreram na região da Pavuna. Há cinco anos, este tipo de crime não chegava a 500 casos na região do Rio de Janeiro. Há cinco anos, este tipo de crime não chegava a 500 casos na região.

Essa situação mostra, mais uma vez que a incúria das autoridades responsáveis pela Segurança Pública nos últimos anos – que arrostavam controle sobre a cidade e seus indicies criminais – eram nada mais do que uma bazofia para encobrir a falta de preparo e investimentos sustentáveis, no setor de Segurança Pública para a realização dos grandes eventos esportivos que aqui ocorreram – Copa do Mundo e Olimpíadas.

Na ressaca desses acontecimentos o que temos é um desmoronamento por completo do quadro edulcorado que foi apresentado a população e ao mundo. E a crise aguda do roubo de cargas é mais um exemplo desse quadro fantasioso criado.

O crime atua na lógica do custo benefício. E em sua análise de “mercado” vislumbra o lucrativo negócio do roubo de cargas, em um cenário de absoluta insegurança, crise econômica e desemprego deteriorando o poder de compras das classes menos abastadas e facilidade relativa em cometimento desse tipo de delito.

Criando uma rede de distribuição que trabalha na maior parte do tempo sob demanda, as gangues ligadas a venda de drogas abrem essa nova frente de negócios aproveitando-se da incapacidade do Estado em prover segurança.

Diante disso o Brasil fica ao lado de países onde o Estado já desapareceu a muito tempo, como o Iraque e a Somália. Triste companhia.

O corolário é aumento do valor dos seguros, perda de confiança entre os setores econômicos envolvidos no transporte de carga, vidas inocentes muitas vezes violentadas emocionalmente e perdidas em alguns casos. Enfim. Estabelece-se um quadro de verdadeira anomia social.

O Estado pode e tem elementos para reverter essa situação. Os roubos têm localização geográfica definida e periodicidade. Falta vontade política, ações de mapeamento e inteligência e uso de intervenções táticas nos morros à volta da região criminosa, conhecida entre os locais como rua do “roubadinho”, para que se obtenha sucesso e se refreie essa escalada criminosa.

Cabe aos agentes econômicos sabedores da virtual falência do Estado do Rio de Janeiro se mobilizarem, a suas entidades de classe junto ao Estado para prover os meios e recursos necessários a ações perenes que garantam a volta da segurança e a sua manutenção.

E cabe ao estado para de se lamentar e se posicionar, apesar da crise econômica que se abate sobre ele, em uma proposta ativa de uma “parceria público-privada” algo na linha das bem-sucedidas operações desenvolvidas pela FECOMERCIO. Ações que ajudaram a reduzir consideravelmente os índices criminais nos seus locais de atuação e que ganharam a simpatia da população.

Obviamente que são situações bem distintas, mas soluções de curto prazo existem. Basta querer desenvolvê-las. Desse modo o faroeste no Rio de janeiro fica restrito às telas do cinema e as reprises da tv.

Newton de Oliveira é especialista em Segurança Pública e Coordenador de Pós-graduação e Extensão da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio. Foi Subsecretario Geral de Segurança Pública do RJ. Possui cursos de Segurança em Israel. Reino Unido e EUA.

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