O que será do PT sem Lula? Essa será a grande questão após a eleição

Decisões importantes, que têm direcionado parte do andamento da campanha presidencial, saem todos os dias de dentro de uma sela da Polícia Federal (PF) de Curitiba. Preso, o ex-presidente Lula mantém para si o foco do PT. Dá as cartas; não se deixa substituir. Mas acabou levando o partido a uma cilada: sem ele, o que será do PT? 

Publicamente, claro, todos os petistas e militantes defendem Lula candidato. Dizem que a eleição sem ele será uma fraude, além de ressaltar que não há provas contra Lula, vítima de um “julgamento de exceção” da Lava Jato. 

Pelos corredores do Congresso, porém, alguns parlamentares do partido reconhecem os riscos do “lulismo”. “Lula virou o centro, tem feito todos crerem que, sem ele, não há PT. Mas ninguém mais acredita que ele será solto, menos ainda que será liberado para disputar a eleição. E aí? Como ficamos?”, disse um deputado, que pediu para não ser identificado, “para não se complicar”. 

Lula é o grande problema do PT, mas também sua principal virtude

Manter Lula na disputa presidencial apesar de ele ser considerado inelegível pela Lei da Ficha Limpa, já que foi condenado em segunda instância, mantém o partido vivo, evidente. Na quarta-feira (15), o PT registrou a candidatura de Lula no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e fez do momento um ato político inédito. É a primeira vez que cinco mil pessoas (militantes favoráveis a Lula) acompanharam um simples registro de candidaturo. 

A Justiça Eleitoral vai analisar o caso de Lula, que deve ser substituído como candidato do PT pelo ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad. Mas os impactos para o futuro do PT vão além do resultado final das eleições. 

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“Boa parte da estratégia de manter o Lula em evidência, tem a ver com a fragilidade que o PT tem de ter vida própria sem ele. O peronismo passou por isso na Argentina, por exemplo. O PT tem um problema, que é o Lula, mas que também é sua grande virtude”, diz o cientista político Victor Oliveira. 

Para Oliveira, o partido se submete à Lula pela falta de outras lideranças internas, que acabaram “sufocadas” pelo próprio ex-presidente e que, agora, fazem falta nesse momento de crise. Mas, com Lula, a legenda “tenta manter a hegemonia na esquerda, evitando que outras lideranças desse campo cresçam, evitando concorrentes externos”. 

Sobrevivência do PT depende do resultado das urnas

Claro que todos os partidos estão atentos à eleição e traçam estratégias para ter o melhor desempenho possível nas urnas. Para o PT, porém, diante do cenário, sobreviver depende de certa forma do resultado das urnas. 

A insistência de Lula em registrar a candidatura tem por objetivo blindá-lo politicamente. Mas o plano vai além. Com Lula em evidência o maior tempo possível, além de aumentar as chances de transferência de voto a um eventual substituto na chapa presidencial, cresce a visibilidade do partido. E, consequentemente, o seu desempenho geral nas eleições.

“Talvez, pelo que temos avaliado, o risco da manutenção de Lula como candidato não seja tão grande para a perspectiva eleitoral, o que não significa que seja saudável para o partido”, avalia o cientista político Victor Oliveira. 

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Mas parlamentares do PT veem com ressalva a estratégia. “É uma faca de dois gumes. Por um lado, ele traz votos para o partido e isso vai ser essencial na nossa sobrevida aqui [no Congresso]. Por outro, virou o dono do PT. Ninguém o desobedece ou discute com ele. É um grande estrategista, mas está preso”, afirmou outro deputado petista, também sob condição de não se identificar.

Para fugir das armadilha que pode ser o “lulismo”, um dos focos principais da legenda é aumentar a bancada na Câmara, hoje com 61 deputados. Esse número influencia tempo de programa eleitoral na TV (importante nas eleições futuras) e o caixa da legenda – o Fundo Partidário e o Fundo Eleitoral são distribuídos de acordo com a quantidade de cadeiras que cada sigla ocupa na Casa. Além disso, uma bancada maior aumenta a relevância política do PT dentro do Congresso. 

“A grande questão vai ser o desempenho nas eleições proporcionais, para deputado. Os recursos do partido dependem disso, que é o que determinará o nível de competitividade do PT e outros partidos”, afirma o cientista político André Jacomo. 

Isso é importante para que o partido, mesmo que não vença o pleito presidencial, consiga fazer uma oposição firme e de peso. Analistas políticos são quase unânimes ao avaliar que o PT “faz oposição como ninguém”, analisou Jacomo.

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