Bolsonaro fora de debates? O que está por trás dessa estratégia

Líder nas pesquisas de intenção de voto para a presidência em cenários sem o ex-presidente Lula (PT), o candidato Jair Bolsonaro (PSL) pode não participar de novos debates entre presidenciáveis promovidos por meios de comunicação no primeiro turno. O candidato e a equipe de campanha têm dado declarações controversas sobre a participação nos encontros, ora dizendo que Bolsonaro não vai a nenhum debate, ora voltando atrás e dizendo que ele vai a todos e, às vezes, dizendo que irá a alguns.

A Rádio Jovem Pan tinha um debate entre os candidatos marcado para a próxima segunda-feira (27), mas acabou desmarcando o encontro alegando a “manifestação de incerteza do candidato Jair Bolsonaro em participar de debates presidenciais e da insistência do Partido dos Trabalhadores em manter a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, que está impedido pela Justiça de comparecer a debates democráticos”.

Somente nessa semana, foram várias reviravoltas. Na noite de quarta-feira (22), o presidente do PSL e braço direito de Bolsonaro, Gustavo Bebianno, disse que o militar não iria a mais nenhum debate. No dia seguinte, o candidato voltou atrás e disse que iria a três encontros. Nesta sexta-feira (24), o Estadão informou que Bolsonaro disse que não vai participar do debate promovido pelo jornal, que acontece no dia 3 de setembro. Antes de começar o período eleitoral, Bolsonaro havia dito que não participaria de nenhum debate. Depois, há dois meses, voltou atrás e disse que estaria presente sim em todos.

Por que Bolsonaro evita debates?

Candidato por um partido nanico, Bolsonaro tem pouquíssimo tempo de TV no horário eleitoral gratuito para fazer campanha. São apenas 8 segundos em cada bloco de 12 minutos e meio, três vezes por semana. Para se ter uma ideia, o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) vai ter 5 minutos e 32 segundos em cada bloco. O tempo é distribuído de acordo com o tamanho das bancadas dos partidos coligados.

Com um tempo escasso na TV, os debates seriam importantes para Bolsonaro ganhar mais visibilidade entre os eleitores. “Qualquer oportunidade que ele tenha de estar visível nos meios de comunicação é importante”, explica o cientista político da Uninter, Doacir Quadros.

Quadros, porém, encontra uma estratégia por trás das negativas de Bolsonaro em participar dos próximos encontros. “Entendo que a estratégia dele é preservar sua imagem”, aposta. “De fato, parece que no último debate a imagem do Bolsonaro ficou extremamente abalada no sentido de sua capacidade de argumentação, exposição de ideias e mesmo defesa frente aos outros candidatos”, analisa.

No primeiro debate, realizado pela Band, Bolsonaro acabou ficando apagado em relação aos demais candidatos. No segundo, promovido pela Rede TV!, a situação do capitão da reserva ficou mais dramática. A falta de conhecimento de Bolsonaro sobre questões econômicas ficou evidente quando ele tentou responder a uma pergunta do jornalista Reinaldo Azevedo. Além disso, Bolsonaro foi duramente confrontado pela candidata Marina Silva (Rede) que aproveitou um comentário dele sobre igualdade salarial entre homens e mulheres para pressioná-lo. “Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência”, disse Marina, que se saiu melhor no confronto olho no olho – que havia sido iniciado por Bolsonaro.

Para o cientista político, a falta de experiência do presidenciável do PSL na disputa por cargos no Executivo explica porque ele não se saiu bem nos dois debates dos quais participou. “No caso do Bolsonaro, toda a formação política dele é no Legislativo. Ele ainda não tem o traquejo necessário para um postulante ao cargo de presidente”, diz. “Falta experiência para ele saber se portar em momentos como o debate em que você tem que defender sua posição e responder a críticas do adversário”, completa.

Estratégia pode funcionar, mas não por muito tempo

Para Quadros, a estratégia de Bolsonaro de preservar sua imagem ao não comparecer aos debates não vai se sustentar por muito tempo. “Essa estratégia funciona até um certo momento, mas de determinados debates creio que ele tenha que participar”, diz. Sobretudo nos debates mais próximos do dia de votação.

A estratégia de usar apenas a internet, para Quadros, não vai ser suficiente para garantir Bolsonaro em um segundo turno da disputa. “É o que chamamos de pregar para os convertidos, esses eleitores [impactados pela internet] funcionariam como formadores de opinião, militantes desse candidato para fazer [propaganda] boca a boca. Por outro lado, o debate vai, de certa maneira, fortalecer esse trabalho dos militantes”, explica.

Segundo turno ameaçado

Até agora, a presença de Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial é dada como certa. Mas ao abrir mão da exposição nos meios de comunicação, o candidato pode acabar ficando de fora da disputa já no primeiro turno.

“O eleitor está tentando identificar na pessoa dos candidatos segurança e preparação. Se ele [Bolsonaro] está mostrando já no primeiro turno essa falta de segurança, isso vai abalar seu sucesso eleitoral já no primeiro turno”, aposta Quadros.

“Tem que entender que essa intenção de voto que o candidato tem, de fato é uma intenção”, diz o cientista político. Quadros lembra que, ao mesmo tempo em que Bolsonaro luta para manter as intenções de voto que tem, os demais candidatos lutam para subir nas pesquisas.

“Não tem como de fato pensar em um candidato a presidente que abre mão de um momento importante na conquista do voto. O cargo exige que esse postulante mostre segurança, capacidade de comunicação, tranquilidade, defesa de seu posicionamento”, conclui o cientista político da Uninter.

Envolvidos na campanha tem discursos diferentes sobre participação nos debates

Na noite desta terça-feira (23), o filho do presidenciável, Eduardo Bolsonaro, disse em sua conta no Twitter que até agora, Bolsonaro foi em todos os debates e deu a entender que o presidenciável não vai faltar em nenhum encontro. “Há um tempo correu um boato de que Bolsonaro não iria aos debates. Ele até agora foi em todos. Aí agora a história se repete e tem gente que acredita de novo!!!”, disse Eduardo.

Também nessa terça, Carlos Bolsonaro, outro filho do capitão da reserva, se manifestou nas redes sociais, dizendo que a narrativa de que o pai não iria aos debates foi invenção. “Jair Bolsonaro tem ido a palestras, entrevistas, sabatinas e debates desde o início, e desde o mesmo início de sempre, os mesmos bandidos inventam a narrativa de que ele não iria. Vai ver que esse cara que está no chão com a população é um robô e não sabemos”, disse.

Já o presidenciável disse, no Facebook, que vai tentar atender aos convites que não comprometerem a agenda de campanha. “Desde o início temos atendido gentilmente a diversos convites para entrevistas, sabatinas e debates no Brasil inteiro, quase sempre em ambientes conhecidamente desfavoráveis. Seguiremos buscando atender aos convites com boa fé, sem comprometer nossa agenda”, disse Bolsonaro.

Na próxima terça-feira (28), o candidato é esperado para uma entrevista no Jornal Nacional. O presidenciável ainda não se manifestou sobre seu comparecimento no programa. A reportagem da Gazeta do Povo não conseguiu contato com integrantes da campanha de Bolsonaro para comentar o assunto.

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