Como operam os aplicativos de compra de compartilhamento de notícias do PT

Um convite, um processo seletivo, um aplicativo, um contato via Whatsapp e uma promessa de pagamento. Esse era um dos fluxos pelos quais passavam todos os influenciadores digitais que participaram – ou quase participaram – do mais recente escândalo político brasileiro, o pagamento de pessoas físicas para que compartilhassem notícias sobre o PT.

Para o diretor de arte Lucas Cruz, 22 anos, o caminho foi esse. “Um amigo meu convidou. Foi falando sobre influência digital e chamou quem quisesse para participar de um processo seletivo. Eu fiz o processo e fui selecionado, então me disseram que eu tinha que baixar um aplicativo e cumprir as missões”, conta. O nome do aplicativo está em todas as manchetes e, no Twitter, ficou entre os assuntos mais comentados como #MensalinhoDoTwitter. É “O Brasil Feliz de Novo”, suspeito de remunerar influenciadores digitais para divulgar conteúdo positivo a respeito do Partido dos Trabalhadores.

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Publicações na página do Follow no Facebook comprovam que o aplicativo dava dinheiro para os “ativistas digitais”. Reprodução/Facebook

“Comprometidos com um processo eleitoral responsável e consciente, o Partido dos Trabalhadores criou o Brasil Feliz de Novo, um aplicativo de compartilhamento de conteúdos diversos vinculados a algumas das nossas pré-campanhas”, diz o texto de descrição do aplicativo. Outro aplicativo, o Follow Now, é ligado ao primeiro e também está envolvido nas denúncias que inundaram o Twitter. Ambos foram desenvolvidos pelas mesmas empresas. Na Apple Store, loja de aplicativos da Apple, quem assina como desenvolvedora dos dois apps é a 2X3 Inteligência Digital. Já no Google Play, loja de aplicativos do Android, quem assina é a Pavarotti.

Lucas Cruz explica como era o processo que estava escolhendo usuários das redes sociais para que se tornassem “ativistas digitais”. “Era um formulário onde você colocava seus interesses, suas ideias políticas. Você preenchia esse formulário e aguardava uma resposta por e-mail ou Whatsapp. Eles me mandaram pelo Whatsapp”, explica. Depois de trocar algumas mensagens, ele desistiu de participar da ação. “Mandei perguntas para entender como funcionava o pagamento. Eles disseram que seria combinado pelo Whatsapp, não explicaram muito bem. Eu nem entrei no grupo [#Lulazord, grupo do Whatsapp divulgado por influenciadores que levaram a parceria adiante] porque vi que era furada.”

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Em conversa, responsável pelo Follow Now afirma que são necessários 400 pontos para que o influenciador ganhe R$ 500. Reprodução

Também em Curitiba, outro jovem influenciador de 21 anos foi procurado via e-mail no último dia 10 de agosto. O rapaz, que pediu para não ser identificado, conta que quem entrou em contato com ele foi a Lajoy, uma das empresas envolvidas no caso. “Disseram que eram pautas de esquerda [as que ele deveria compartilhar]. Pensei ‘ah, eu já falo disso uma vez ou outra, por que não?’. Aí a gente trocou e-mails e eles fizeram toda a proposta, mas eu estava esperando um contrato, que eles acabaram não enviando.”

O jovem de 21 anos afirma que a remuneração oferecida foi de R$ 2 mil para que ele produzisse um post por dia no Twitter. Entre ele e Cruz, algumas coincidências. Ambos estranharam o conteúdo com viés partidário das pautas propostas. “No primeiro e-mail eles disseram que seria sobre feminismo, a causa LGBT, cultura negra, pautas de minorias. Mas a pauta do primeiro dia era muito partidária e eu realmente achei melhor não me envolver com isso”, lembra M. Ao contrário de Cruz, ele diz que nem sabia da existência dos aplicativos.

Para o jovem, a maioria dos influenciadores “foi enganada”. “Acharam que iam falar de pautas sociais e foram enganados para falar de política. Acredito que muitos deveriam ter saído a partir do momento em que perceberam isso, mas sinto que os principais prejudicados foram os que disseminaram o conteúdo”.

Um emaranhado de empresas parece estar envolvido no caso. A Lajoy, mencionada por M., é apenas uma delas. De acordo com a proprietária da agência, Joyce Falete, a empresa foi contratada pela Beconnected para encontrar os influenciadores e manter o contato com eles. A Beconnected, por sua vez, confirma ter sido contratada pelo PT em junho com o objetivo de monitorar redes sociais.

O endereço da Beconnected é a sala 501 do Edifício Pavarotti, que fica na Rua Fernandes Tourinho, 669, em Belo Horizonte. Na mesma sala estão registradas outras duas empresas, a Follow e a Sharing. A Follow pertence ao deputado federal Miguel Corrêa (PT), que foi secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais até o começo deste ano. Já a Sharing tem vários sócios. Entre eles estão William Vinicius Lopes Camargos, Rodrigo Queles e Breno Nolasco, ex-assessor de Corrêa. que aparece em um vídeo publicado no Youtube explicando todos os detalhes de como funcionava a acumulação de pontos e os pagamentos recebidos pelos “ativistas”. Em 2018 Corrêa é candidato ao Senado por Minas Gerais.

Além do vídeo detalhando como funcionavam as bonificações dadas pelos aplicativos, a página do Follow no Facebook também deixa claro, em várias publicações, que havia pagamentos em dinheiro para os ativistas que compartilhavam os conteúdos. Nos e-mails trocados com os influenciadores também há a promessa de pagamentos por publicação.

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Um dos e-mails enviados a influenciador curitibano pede para que se compartilhe conteúdo positivo sobre o senador Lindbergh Farias (PT). Reprodução

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Quando a imprensa publicou as primeiras matérias sobre o caso, no domingo (26), M. recebeu um e-mail suspendendo as ações naquele dia. Reprodução

O que diz a lei?

A legislação que regula as eleições prevê a propaganda eleitoral em redes sociais apenas no modelo de impulsionamento, em que candidatos, siglas e coligações contratam diretamente a rede social. “É vedada a veiculação de qualquer tipo de propaganda eleitoral paga na internet, excetuado o impulsionamento de conteúdos”, diz o artigo 57 da lei nº 13.488.

A propaganda em redes sociais deve mencionar, explicitamente, qual partido, candidato ou coligação, com CNPJ, a pagou, “não devendo empregar meios destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais”, diz o artigo 6.º da Resolução 23.551. 

Os pagamentos no caso que envolve o PT não foram feitos à rede social. Se a Justiça Eleitoral determinar o crime, os envolvidos são passíveis de multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil, além de processo criminal e civil.

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Página inicial do aplicativo “O Brasil Feliz de Novo”. Reprodução

Outro lado

Em nota, o PT afirmou que “não contratou nem pagou nenhuma empresa para fazer divulgação remunerada de conteúdos nas redes sociais. O PT não pratica nem precisa desse tipo ação. O partido construiu forte presença nas redes sociais, sempre baseada no engajamento espontâneo”.

Sobre o caso, Joyce Faletti, dona da Lajoy, também se manifestou por meio de nota. “Fui contratada, para o mês de junho e julho, pela empresa Be Connected para dar consultoria sobre quais jovens profissionais tecnológicos e digitais de esquerda eram aptos a construir e sugerir a melhor tática (conteúdo: posts, memes e gifs) de apresentar a proposta para quando chegasse o período eleitoral. Não havendo nenhuma contratação pela minha empresa para este período. Através da minha experiência, conhecimento e proximidade com os influencers, indiquei os que, como eu, discutem e fortalecem as causas progressistas de esquerda. Apenas seguindo a solicitação do nicho pedido pela Be Connected. Não é surpresa pra ninguém que me acompanha que eu sempre fui de esquerda e sempre fui Lula Livre e sempre fui petista e apoio o PT.  A Lajoy existe há 8 anos. Nossa credibilidade foi conquistada com muito trabalho e responsabilidade. Neste caso, não agimos diferente. Temos segurança da qualidade do nosso trabalho e da parceria consistente com nossos clientes e parceiros.”

Por telefone, a 2×3 Inteligência Digital disse que é “apenas a desenvolvedora” dos aplicativos e que não se responsabiliza pela forma como eles são usados. Também afirmou que não pode dar detalhes sobre quem a contratou para desenvolver esses produtos porque tem contrato de confidencialidade. O telefone fornecido na página da Follow no Facebook não funciona e o e-mail enviado pela reportagem não foi respondido.

O deputado Miguel Corrêa nega ser dono da Beconnected, mas admite que “em alguns trabalhos Follow e Be Connected apresentaram para clientes análises de monitoramentos de redes de perfis reais de grandes influencers para apontar comportamento e análise deste novo ambiente de debate democrático, de onde nasceram movimentos de unificação de conteúdo”. À Gazeta do Povo, ele disse ser um apoiador de startups e pequenas empresas, o que justificaria o fato de várias delas funcionarem no mesmo endereço. Corrêa negou a existência dos pagamentos a influenciadores.

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