Ataque a Bolsonaro fere democracia e expõe lado sombrio da disputa eleitoral

Após o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) levar uma facada enquanto fazia campanha em Juiz de Fora (MG) na tarde desta quinta-feira (6), o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, definiu o buraco em que o Brasil se meteu. Ele usou o Twitter para lamentar o incidente e disse que “a facada desferida contra o candidato Jair Bolsonaro atingiu em cheio a democracia brasileira”. O cientista político Rodrigo Prando fez um diagnóstico parecido. “Felizmente, seu ferimento será curado, mas as cicatrizes na democracia, na sociedade brasileira, permanecerão, por longo tempo, a causar incômodo, vergonha e medo”, afirmou.

A facada contra Jair Bolsonaro é sintoma de uma acirramento de ânimos que vem sendo alimentado no país desde, pelo menos, 2014. E para o cientista político Marcio Coimbra, esse pode não ser o ápice do movimento. “A polarização cresce e vira uma realidade a partir de agora”, sentencia. Para ele, a eleição tende a ficar ainda mais tensa.

Esse não foi o único ataque recente a políticos que gerou alertas. Em março, o país assistiu ao assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL), ainda não esclarecido pelas autoridades. Dias depois, um ônibus da caravana do ex-presidente Lula foi alvo de um ataque a tiros no interior do Paraná. O caso também ainda não foi esclarecido pela polícia.

“Há uma banalização da violência porque não há certeza da penalização. A violência está sendo uma alternativa até em uma campanha presidencial e isso é um pouco sintoma do que vive o Brasil”, explica Coimbra.

“Isso vem desde 2014 e prejudica a democracia, prejudica o andamento da eleição”, ressalta Prando. Para o cientista político, é importante que a partir do episódio da facada a Bolsonaro, a população se pergunte se esse é o rumo que deseja para o país. “Que isso sirva não como ponto de acirramento, mas como ponto de reflexão”, deseja.

Comoção vai pautar eleição nos próximos dias

Cientista político da PUC-PR, Mario Sergio Lepre ressalta que a disputa presidencial no Brasil tem em 2018 um componente emocional muito forte. “Não vejo com bons olhos esse tipo de disputa. É uma disputa que está no nível inconsciente, no nível simbólico da coisa, fugiu da racionalidade”, explica.

A comoção causada pelo ataque a Bolsonaro vai ter um papel importante nos próximos dias de campanha e pode ajudar a definir a eleição. Para Lepre, o episódio gera ainda mais emoção no cenário eleitoral. “As pessoas param de refletir sobre a função do presidente da República e passam a atender a lógica do messianismo, daquele [candidato] que veio salvar a nação de uma catástrofe”, analisa.

O risco para a democracia

Ataques a candidatos a presidente não podem ser tolerados em uma democracia. A troca de ideias e o respeito à opiniões contrárias devem ser os pilares principais de uma campanha para um cargo tão importante, mas o nível de discurso dos principais candidatos do pleito não têm contribuído para isso.

“É fato que o nível discursivo dos candidatos está num tom acima do aceitável, assaz virulento, de ataques pessoais, de desrespeito aos adversários, enfim, situação que, desde de 2014, tem deixado o país fraturado”, ressalta Prando.

Pouco antes da prisão de Lula na Lava Jato, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, chegou a dizer que para prender o ex-presidente seria necessário “matar gente”. O acirramento dos ânimos, provocado pelo PT, causou conflitos no nos dias anteriores ao encarceramento. Um exemplo foi a agressão do administrador de empresas Carlos Alberto Bettoni em frente ao Instituto Lula, em São Paulo. Ele foi agredido pouco depois de Lula deixar o local com destino ao Sindicato dos Metalúrgicos, onde ficou até o momento da prisão, dois dias depois.

Prando ressalta que o tom da campanha de Bolsonaro também tem sido agressivo. Ele lembra que, há alguns dias, ele afirmou em um evento de campanha no Acre em “fuzilar os petralhas”. O episódio gerou uma reclamação do PT ao Supremo Tribunal Federal (STF), para que Bolsonaro responda por injúria eleitoral.

Para Lepre, os demais candidatos a presidente também têm um papel importante para impedir ainda mais feridas à democracia. “A responsabilidade para com o jogo democrático é de todo mundo, você não pode se eximir de nada. É um papel conjunto de todos de repudiar [a violência]”, declara.

Pouco depois do episódio, os candidatos a presidente se posicionaram sobre o ataque em suas redes sociais. Vários candidatos também cancelaram as agendas de campanha em solidariedade ao capitão da reserva.

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