PT quer mostrar união em anúncio de substituição de Lula por Haddad

O PT anunciará na tarde desta terça-feira (11), como determinado pela Justiça Eleitoral, a substituição do ex-presidente Lula por seu afilhado político Fernando Haddad na chapa presidencial da legenda, que será composta, ainda, por Manuela D’Ávila (PCdoB) na vaga de vice. A decisão foi aprovada por unanimidade pela cúpula do partido, em reunião da executiva nacional realizada em Curitiba.

A troca é uma carta marcada da eleição deste ano. Faltava apenas saber quando seria distribuída. Para isso, a Justiça delimitou um prazo. Mas Lula não queria deixar o espaço. Por fim, decidiu-se que o anúncio oficial à militância será feito em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde o ex-presidente está preso. Mais um ato simbólico.

Emblemática também será a disposição no palco. Haddad e Manuela estarão ladeados por líderes petistas para mostrar ao público a união do partido e a força interna.

A presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, vai discursar. Vai exaltar Haddad, lembrar o período em que ele esteve à frente do Ministério da Educação, nos governos Lula e Dilma Rousseff. Mencionar aumento no número de creches, mas esconder o escândalo das fraudes no Enem que ocorreram no período em que o petista esteve na pasta. O mesmo deve fazer Dilma.

Apesar do discurso e da aparência de união, o clima no PT não é exatamente esse. Antes mesmo de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) barrar a candidatura de Lula, já havia uma divisão entre aliados de Haddad e a “turma da Gleisi”. Também o PCdoB entrou na briga, ao lado de Haddad.

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Gleisi defende a manutenção de Lula enquanto possível, até mesmo levando o nome dele às urnas, mesmo com o ex-presidente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, emendando recurso atrás de recurso, enfrentando barreiras judiciais. Ela acredita que Lula, o maior líder do partido, seu maior puxador de votos, precisa se manter à frente do processo eleitoral, mesmo sem ser eleito. E que, assim, o PT poderá manter por mais algum tempo o discurso de “perseguição política”.

Haddad, embora conhecido no eixo Sul-Sudeste, não é reconhecido no resto do país e precisa de tempo para isso. Portanto, gostaria de assumir logo a cabeça da chapa. O mesmo vale para Manuela D’Ávila, que é deputada estadual no Rio Grande do Sul.

Na segunda-feira, em conversa com Haddad, o ex-presidente escreveu duas cartas. Uma delas foi lida em evento no mesmo dia, em São Paulo, ao qual o ex-prefeito acabou não indo, a pedido de Lula. Foi representado por sua esposa, Ana Estella.

Na ocasião, Manuela D’Ávila falou em nome da chapa. Nesse recado, o ex-presidente já deu início a um tom de transição e disse: “Minha voz é a voz de Fernando Haddad e de todos os companheiros, em nossa jornada destemida para resgatar a dignidade nacional em todos os rincões do país”. 

Executiva do PT se reúne em Curitiba para cuidar dos últimos detalhes

Foi nesse clima que começou a reunião da Comissão Executiva do Partido dos Trabalhadores, por volta de 12 horas desta terça, no hotel Del Rey, no Centro de Curitiba. O encontro foi marcado para comunicar aos demais líderes dos partidos os detalhes que Haddad acertou na segunda e na manhã desta terça, quando esteve com Lula na PF.

/ra/pequena/Pub/GP/p4/2018/09/11/Republica/Imagens/Cortadas/haddad - Carol Werneck-kWlG-U2038318339130sC-1024x576@GP-Web.jpgFernando Haddad, na chegada ao hotel Del Rey, onde se reúne a Executiva do PT: substituição na chapa petista deve ser anunciada na tarde desta terça.Carolina Werneck/Gazeta do Povo

Nesta terça, o ex-prefeito saiu de lá diretamente para a reunião da Executiva, onde chegou às 12h30. Estava acompanhado da esposa e de outros apoiadores, mas não conversou com a imprensa.

A ex-presidente Dilma Rousseff chegou ao hotel por volta das 11h40. Tranquila, disse que é “uma pessoa que acha que nós temos que resistir até o fim” e que “o presidente Lula representa um projeto”. No 16.º andar do prédio já estava a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, além de outros nomes importantes legenda.

Lula não queria Haddad

A carta que será lida nesta terça foi um pedido, quase uma exigência, de Haddad, que não queria se colocar no lugar de Lula sem um aval público – e para o público – do padrinho político. Haddad nunca foi a primeira opção de Lula.

Ele foi feito por Lula. Eleito prefeito de São Paulo em 2012 a seu primeiro e único cargo eletivo até o momento, Haddad foi derrotado de forma acachapante em 2016 pelo novato João Doria (PSDB) após uma gestão mal avaliada na capital paulista. É professoral nos discursos e não tem o carisma do ex-presidente, que o acudia no palanque quando ele perdia a mão e a militância, o ânimo. Agora, Lula não está a seu lado.

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Apesar da resistência, o ex-presidente é precavido, político experiente e ciente de sua situação jurídica – apesar do discurso público. Deixou algumas mensagens de apoio gravadas ao ex-prefeito antes mesmo de ser preso, nas carretas que vinha fazendo e no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, no fim de semana em que se entregou à PF.

Mas Lula não vê em Haddad potencial para vencer o pleito. Diz isso a seus advogados e aliados que o visitam. Embora, claro, estimule o afilhado a fazer campanha.

Quem conhece Lula há muito tempo afirma, contudo, que algo parece se sobrepor a tudo isso: o ego do ex-presidente. Acostumado a ser o centro das atenções no PT, que se fez em torno dele, o líder partidário não quer ter o protagonismo reduzido. Preso, já sofreu um baque político grande e teme ser limado politicamente de vez. 

Porém, não teve escolha. 

Justiça 

Toda candidatura é analisada na Justiça Eleitoral e com Lula não foi diferente. Condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro, ele está inelegível de acordo com a Lei da Ficha Limpa. Provocada pelo PT, a ONU disse que o ex-presidente deveria exercer os direitos de candidato. Porém, o TSE decidiu, na madrugada de 1.º de setembro, barrá-lo. 

Como consequência, a chapa petista precisa ser substituída. Além disso, o PT precisou mudar seus programas no horário eleitoral, não fazendo referência a Lula como candidato e tomando o cuidado de só mencioná-lo em 25% do tempo. 

Na parte burocrática, o PT vai precisar reinscrever eletronicamente a chapa no sistema do TSE e apresentar novos documentos no protocolo até as 19 horas de hoje. Haverá uma nova rodada de análise pelos ministros em sessão ainda a ser marcada. A ideia, no TSE, é finalizar todas as análises até a próxima segunda (17). 

Embora Lula vá deixar a chapa oficialmente, a defesa do líder petista ainda recorre na Justiça em variadas frentes para tentar fazê-lo concorrer. No PT, não se tem mais esperança de que isso seja possível. Quem conversou recentemente com o ex-presidente diz que ele próprio não acredita nessa possibilidade – mas precisa mostrar que tentou até o fim.

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