Por que as pesquisas para presidente desta semana mostram números diferentes?

Nesta semana, depois do atentado a faca sofrido por Jair Bolsonaro (PSL), foram divulgadas até esta quarta-feira (12) quatro pesquisas de intenções de voto para presidente com abrangência nacional. Os resultados, porém, não foram idênticos e, em alguns casos, mostraram cenários um pouco diferentes, principalmente em relação às intenções de voto para o segundo turno, o que abre margem para questionamentos de eleitores.

As divergências, contudo, são esperadas, já que as pesquisas foram feitas em dias diferentes – e um pesquisa é sempre o retrato daquele momento de coleta. E, em geral, os levantamentos desta semana trazem a mesma tendência: Bolsonaro líder e com um pequeno crescimento após o atentado e quatro nomes empatados em segundo lugar, com viés de alta para Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT) e de queda para Marina Silva (Rede).

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Quatro pesquisas em uma semana

Na segunda-feira (10), foram divulgadas duas pesquisas para presidente: uma pela manhã, feita pelo Instituto FSB e encomendada pelo BTG Pactual e outra à noite, feita pelo Datafolha e encomendada pela TV Globo e pelo jornal Folha de São Paulo. Na terça-feira (11), foi a vez do Ibope, encomendado pela TV Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo. Nesta quarta-feira (12), o levantamento foi feito Paraná Pesquisas e contratado pela Empiricus e pela revista Crusoé.

Em todas as pesquisas, Bolsonaro lidera e cresceu em relação ao levantamento feito pelo mesmo instituto anteriormente. O que varia é o percentual. Na pesquisa BTG/FSB*, Bolsonaro aparece com o maior percentual de intenção de voto: 30%. No Paraná Pesquisas**, com 26,6%. No Ibope***, 26%. Já no Datafolha****, com 24%.

Com relação ao segundo lugar, todos as pesquisas mostram empate técnico entre quatro nomes: Ciro, Marina, Geraldo Alckmin (PSDB) e Haddad. Os percentuais de cada candidato variam um pouco de pesquisa para pesquisa. Em geral, as pesquisas mostram um crescimento numérico de Haddad e Ciro na comparação com os levantamentos anteriores feitos pelos mesmos institutos e uma queda numérica de Marina.

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Em relação às simulações para segundo turno, as divergências são maiores. O Datafolha mostra que Bolsonaro perde para Ciro, Marina e Alckmin e empata na margem com Haddad. Já o Ibope mostra que o Bolsonaro empata tecnicamente com os mesmos quatro nomes. O BTG/FSB e o Paraná Pesquisas não fizeram simulações de segundo turno. A principal diferença aqui é o período de coleta: o Datafolha foi feito na segunda-feira (10) e o Ibope de sábado (8) a segunda (10), pegando a semana do atentado e uma provável comoção maior do eleitor.

Entenda quais são os principais fatores que podem explicar as diferenças entre as pesquisas divulgadas nesta semana para presidente:

Data de entrevista

Um dos primeiros itens a observar na divulgação de uma pesquisa é a data de realização das entrevistas. Não há um padrão estabelecido por lei. Há, por exemplo, pesquisas que são feitas e divulgadas no mesmo dia e há pesquisas que são realizadas durante mais de um dia e a divulgação acontece em um dia posterior ao término da coleta.

As entrevistas para a pesquisa BTG/FSB foram feitas no sábado (8) e domingo (9), ainda no calor do atendado sofrido por Bolsonaro. O candidato foi esfaqueado na quinta-feira (6), durante uma caminhada em Juiz de Fora (MG). A pesquisa foi a que trouxe o índice de intenção de voto mais alto para o candidato do PSL.

Ibope e Paraná Pesquisas pegaram uma parte logo após o atentado, ainda no calor do fato, e o restante nesta semana, quando o choque da população tende a diminuir. Ibope fez as entrevistas de sábado (8) a segunda (10) e o Paraná Pesquisas de sexta-feira (7) até esta terça-feira (11).

Os resultados das pesquisas mostram qual é o cenário eleitoral no momento em que as entrevistas foram realizadas. Por isso, os resultados variam de um levantamento para o outro e a interpretação deve sempre levar em consideração o período de coleta e os fatos que marcaram ou antecederam os dias de entrevista.

Método: presencial ou por telefone

Outro item importante em um pesquisa é o método de coleta dos resultados. Atualmente, há quatro formas de se fazer pesquisas: por entrevistas pessoais (a tradicional), por entrevistas feitas por telefone por um entrevistador humano, por telemensagem gravada (uma gravação pede para o eleitor responder às perguntas apertando os números do teclado) e pela internet (por e-mail, SMS ou WhatsApp). No Brasil, ainda não há pesquisas eleitorais pela internet

No caso de Ibope, Datafolha e Paraná Pesquisas, os levantamentos foram feitos presencialmente. O BTG/FSB escolheu fazer a pesquisa por telefone com um entrevistador humano. A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) não recomenda a realização de entrevistas por telefone por entender que elas nem sempre retratam com fidelidade a intenção dos eleitores.

Os críticos das entrevistas por telefone citam algumas limitações da metodologia que podem influenciar os resultados. A primeira seria atingir somente a parcela da população com acesso a telefone fixo e móvel. O segundo seria apresentar os candidatos em uma ordem, normalmente alfabética, o que pode influenciar o resultado. Na pesquisa presencial, o entrevistador dá um disco dividido em partes iguais com os nomes de todos os candidatos.

Por outro lado, há quem diga que a pesquisa por telefone pega o voto do eleitor envergonhado, aquele que deseja votar em um candidato mais radical, mas evita dizer isso publicamente com medo de rejeição dos seus pares e familiares.

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Amostra

A amostra utilizada em cada pesquisa também ajuda a explicar os resultados. Os institutos de pesquisa utilizam o que chamam de “estratificação da amostra de eleitores”. Ou seja, selecionam um grupo de pessoas que representa o eleitorado por sexo, faixa etária, escolaridade, renda e região em que mora. A montagem da amostra é feita com dados oficiais do IBGE e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Há, ainda, a escolha da abrangência: se nacional (pegando todo o território brasileiro) ou em um estado ou município.

Apesar de a estratificação seguir os mesmos parâmetros (sexo, faixa etária, escolaridade, renda e região em que mora) e de todas serem de abrangência nacional, há algumas diferença sutis entre as pesquisas desta semana podem ter alguma influência sobre o resultado.

No caso da pesquisa feita pelo BTG/FSB, por exemplo, a distribuição esperada da amostra era de 48,5% de entrevistados do sexo masculino e 51,5% do sexo feminino. No Datafolha, por exemplo, 47% dos entrevistados eram do sexo masculino e 53%, feminino.

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Em relação ao grau de instrução, por exemplo, a amostra do Paraná Pesquisas tem até 79% dos entrevistados com ensino médio e 21% com superior. No Ibope, o percentual de entrevistados com ensino médio é de 81% no caso de homens e 76% no caso de mulheres. Já com ensino superior completo é de 19% para homens e 24% para mulheres.

Todas as pesquisas aplicam ao final da coleta um fator de ponderação nos resultados para correção de eventuais diferenças entre o planejado na amostra e o observado pelo trabalho de campo.

Há, ainda, a diferença entre os tamanhos da amosta, ou seja, a quantidade de pessoas que são entrevistadas. Mas, segundo o Ibope, o tamanho da amostra não determina se uma pesquisa é melhor do que a outra. Mais importante é a estratificação ser o mais fiel possível ao perfil do eleitorado brasileiro.

Outro fator é o local de realização das entrevistas (no caso das presenciais). Ibope e Paraná Pesquisas entrevistam os pesquisados em suas residências. O Datafolha faz as entrevistas em pontos de concentração de pessoas, como praças e paradas de ônibus.

Margem de erro

A margem de erro é um componente importante das pesquisas. Todas as pesquisas possuem alguma margem de erro. Em geral, os índices variam de dois pontos percentuais (p.p.) até quatro p.p. para mais ou para menos. Por exemplo: se a margem de erro de uma pesquisa é dois pontos e o candidato aparece com 40% das intenções de voto, isso quer dizer que o candidato pode ter de 38% a 42% das intenções de voto.

As quatros pesquisas divulgadas nesta semana trazem margem de erro de dois pontos percentuais. Considerando a margem, vários índices que elas trazem podem vir a bater.

Por exemplo, no caso do líder Bolsonaro, o Datafolha dá o candidato com 24% da intenções de voto. Considerando a margem, ele teria de 22% a 26%. O Ibope mostra Bolsonaro com 26%. Considerando a margem, ele teria de 24% a 28%. No Paraná Pesquisas, o percentual do candidato do PSL varia de 24,6% a 28,6%, levando em conta a margem. No BTG/FSB, de 28% a 32%.

Metodologias

* Pesquisa realizada pelo BTG/FSB de 8/set a 9/set/2018 com 2.000 entrevistados (Brasil, por telefone). Contratada por: BTG. Registro no TSE: BR-01522/2018. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Confiança: 95%. *

** Pesquisa realizada pelo Datafolha no dia 10 de setembro com 2.820 entrevistados (Brasil). Contratada por: GLOBO E FOLHA DE SÃO PAULO. Registro no TSE: BR-02376/2018. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Confiança: 95%.

*** Pesquisa realizada pelo Ibope com 2.002 entrevistados entre os dias 8 e 10 de setembro (Brasil). Contratada por: REDE GLOBO E O ESTADO DE SÃO PAULO. Registro no TSE: BR-05221/2018. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Confiança: 95%.

**** Pesquisa realizada pelo Paraná Pesquisas de 7/set a 11/set/2018 com 2.010 entrevistados (Brasil). Contratada por: EMPIRICUS RESEARCH e Revista Crusoé. Registro no TSE: BR-02410/2018. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Confiança: 95%.

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