Haddad fala sobre indulto a Lula e diz: “quero colocar chicote e cenoura nos bancos”

Candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad foi sabatinado mais uma vez nesta segunda-feira. Em entrevista promovida em conjunto pela Folha de S.Paulo, UOL e SBT, o presidenciável garantiu: Lula é um grande conselheiro e terá papel destacado no governo, caso eleito.

Sobre a possibilidade de, caso eleito, conceder indulto a Lula, Haddad comentou que o ex-presidente refuta tal ideia e tem esperança de ser absolvido pelos tribunais superiores. 

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Haddad disse ainda que não irá atacar seus adversários do campo da esquerda, pois pretende de tê-los a seu lado em eventuais segundo turno e governo.

Confira os principais trechos da entrevista. 

Lula

O presidente Lula, sem sombra de dúvida, na opinião da maioria dos brasileiros, foi o maior presidente da história deste país. Ele é um grande conselheiro e terá um papel destacado [em seu governo] em aconselhamento, em falar de sua experiência. Jamais dispensaria a experiência do presidente Lula. 

Indulto 

Quando vocês da imprensa começaram a falar desse tema, isso chegou ao conhecimento do presidente. Antes que pudéssemos tocar no assunto, ele fez uma carta. Ele disse: “Eu não troco minha dignidade por minha liberdade. Quero que os tribunais superiores reconheçam que não há prova no processo contra mim e me absolvam”.

Eu acredito que ele terá justiça, será absolvido. Isso já atingiu um âmbito internacional. A própria ONU deve julgar o mérito do caso Lula no primeiro semestre do ano que vem.

Aquele processo não tem sustentação. Não é  Fernando Haddad que diz isso, mas sim centenas de juristas que já se debruçaram sobre o processo. O processo está cheio de vícios.

Daria cargo para Lula e Dilma em seu governo?

A primeira coisa que devemos fazer é buscar justiça para ele. Vou continuar na campanha Lula Livre.

Dilma será senadora. Vamos ver… É muito difícil para um ex-presidente topar ser ministro.

O Lula só topou ser ministro da Casa Civil porque viu que estavam tentando dar um golpe na Dilma e foi fortalecer o governo. Não acho que o Lula tinha intenção de voltar para o governo, a não ser como presidente. 

Lava Jato

Pretendo aperfeiçoar uma parte da legislação. Por exemplo, o delator mentiroso. Não está claro na Constituição o que acontece com o delator que é um mentiroso contumaz. Acho que deve haver um protocolo para estabelecer regras mais precisas para o delator mentiroso.

Na minha opinião, a legislação brasileira ficou muito frágil em relação ao corruptor. Ele em geral alega que foi obrigado a pagar propina, pois as obras não andavam, quando na verdade ele é que organiza os cartéis. 

Geralmente o corruptor é o delator mentiroso. Temos que corrigir algumas pequenas falhas para evoluir nas investigações. Para não permitir que pessoas inocentes passem por constrangimentos. Faremos isso em parceria com o Ministério Público.

Controle social da mídia

Sou a favor de que não haja o excesso de concentração de propriedade privada. Por exemplo, num estado brasileiro, as vezes uma única família detém a TV e a rádio de maiores audiências e o jornal de maior circulação. Isso no mundo desenvolvido é impossível. Você não pode ser proprietário de tudo num mesmo território.

Urna eletrônica

Não se deve contestar resultado eleitoral que o TSE proclamou. Eu espero que o TSE se manifeste sobre essas acusações sendo feitas. Eu avalio que a ampla maioria do Congresso Nacional que for eleita irá discordar desse discurso feito pelo Bolsonaro.

E há um cansaço muito grande do país e da classe política em sabotar o país. Estamos há quatro anos sabotando o país. Vamos passar mais quatro anos sabotando? País precisa de paz, de uma agenda firme, de serenidade. 

/ra/pequena/Pub/GP/p4/2018/09/17/Republica/Imagens/Cortadas/Lancamento_Haddad - MA-7-1061-kRQB-ID000002-1024x683@GP-Web.jpgMarcelo Andrade/Gazeta do Povo

União das esquerdas

Fui quem mais buscou a aproximação de todas as partes da centro-esquerda para lutar contra esse obscurantismo que está solto.

Continuarei lutando para que estejamos juntos. Não foi possível no primeiro turno, será possível no segundo e ainda mais num governo. Você está falando com uma pessoa que não tem nada de sectário, está falando com uma pessoa que ajudará a construir um amplo campo de apoio democrático popular. 

Não é bacana para a sociedade, em função da disputa de primeiro turno, ficar rebaixando os demais. Eu vou é enaltecer as pessoas de centro-esquerda. Quero estar com elas no segundo turno, quero estar com elas no governo.

Economia nos governos petistas

De 2003 a 2012, foi praticamente irretocável. Fomos muito bem. Em relação a 2012 e 2013, a própria Dilma admite que não tomaria algumas medidas  novamente. Como o caso das desonerações, das tarifas de energia elétrica. Eu alertei antes. Eu dizia que precisávamos de um ajuste em relação a essas medidas.

Mas repito: a crise de 2015 e 2016 não se explica por esses erros. Houve uma instabilidade política a partir de 2015. Essa sim é responsável por um ambiente de insegurança política e jurídica que fez o investimento privado retrai-se. E aí tivemos a queda do PIB. Foi um ato político da oposição visando tomar o poder. 

Reforma da Previdência

O Marcio Pochmann [ um dos formuladores da agenda econômica do PT, disse que a reforma não é emergencial] é um professor, candidato a deputado federal [pelo PT] e uma pessoa independente do ponto de vista intelectual. Participou do programa do PT como outras pessoas participaram. Não quero desmerecer a participação dele, mas o programa do PT foi validado por mim e por Lula. Vale o que está escrito. Agora as pessoas continuam tendo a opinião delas.

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Nós temos um problema fiscal. Temos que perseguir uma trajetória de sustentabilidade fiscal, mas temos que observar uma dimensão política e social. Chamar os pobres para pagar a conta da crise não é razoável.

Essa reforma do Temer, o primeiro relatório que está na Câmara, tem coisas úteis. Os regimes próprios de Previdência deveriam ser o objeto inicial da reforma. Em dois anos governadores e prefeitos não vão conseguir pagar suas folhas. 

Agora, com todas as variáveis  -idade mínima, alíquota de contribuição- , abre-se uma mesa de discussões, como fizemos em 2003 e 2012. 

Sistema bancário 

Estou animado com as cooperativas de crédito no brasil. Estão tendo um avanço significativo. Perguntei ao próprio presidente do Banco Central, o  Ilan Goldfajn, com quem tenho uma boa relação, como ele via essa questão.  

Quero colocar um chicote e uma cenoura no sistema bancário, para que quem reduzir os juros pague menos impostos. Introduzir um elemento de progressividade no sistema. 

Alianças para o governo

Vamos conversar com o campo democrático popular. Estou em interlocução permanente com governadores do PSB. O centrão abraçou outro projeto, que não funcionou. E eles querem mais do mesmo.

Existem dois tipos de apoio. Um para evitar um mal maior e o apoio mais programático, pensando numa agenda nacional. Não saberia dizer em que condições o PSDB estaria disposto a apoiar uma candidatura do PT contra Bolsonaro. 

Mas existe espaço para uma agenda de Estado, que tem a ver com o fortalecimento de uma agenda republicano, o que não se confunde com apoio a propostas do governo. 

Sem perder a firmeza de propósitos, você precisa abrir um espaço para construir consensos. Precisa tratar as pessoas para animá-las a buscar metas mais ambiciosas.

/ra/pequena/Pub/GP/p4/2018/09/17/Republica/Imagens/Cortadas/43152422485_74ce4205f3_o-kRQB-U203854772506qAG-1024x683@GP-Web.jpgMarcos Oliveira/Agência Senado

Composição do STF 

Precisamos ouvir mais as entidades, dar mais transparência ao processo de escolha dos ministros. Para nomear um conselheiro do Conselho Nacional de Educação, por exemplo, há um processo muito mais transparente do que para nomear um ministro do Supremo. 

Podemos pensar em mandatos também. Pode ser uma coisa até longa, algo em torno de 12, 15 anos.

Drogas

Temos um encarceramento em massa. Prendemos centenas de milhares de pessoas por tráfico, com quantidades irrelevantes de droga. Já o traficante de verdade não está sendo preso. Nosso plano prevê que alguns crimes sejam federalizados, que a Polícia Federal atue em ciclo completo. 

Defesa da democracia

Quem estiver sob o comando da Presidência da República terá que defender a democracia. Não haverá acordo com quem quiser sabotar a democracia no Brasil, seja com gestos, seja com palavras. Se for uma pessoa que ocupa cargo de confiança, estará na rua no dia seguinte. Se for um militar da ativa, será  enquadrado pelo ato disciplinar. Existe regimento para isso. Não vamos tergiversar em relação a isso.

Intervenção na economia

Política industrial deve ser feita com muito cuidado. Subsídio deve ser muito temporário e o setor deve demonstrar que não dependerá do Estado dali para frente. Mas se tiver um setor que mereça atenção do Estado para reindustrializar o país, acho que esse setor merece ser ajudado. 

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