PT esconde ‘chefe’ do plano econômico e busca cara nova para suavizar Haddad 

Um dos principais formuladores do plano de governo do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República, o economista Marcio Pochmann foi desautorizado pelo atual candidato da sigla, Fernando Haddad. O ex-prefeito de São Paulo disse na segunda-feira (17) que Pochmann participou da elaboração do programa assim “como outras 300 pessoas participaram”. A declaração soou como uma tentativa de Haddad descolar a sua candidatura às ideias do economista, normalmente rechaçado pelo mercado financeiro, e de se aproximar do núcleo financeiro do país, que – até o momento – não vê com bons olhos um eventual novo governo petista.

A declaração foi feita durante sabatina do UOL/SBT/Folha após Haddad ser questionado se ele faria uma reforma da Previdência de forma emergencial para resolver o déficit do sistema e ajustar as contas públicas, já que o seu economista de campanha, Marcio Pochmann, é contra mudanças radicais e imediatas. Em entrevista à Gazeta do Povo em junho, Pochmman questionou se há de fato déficit na Previdência, disse que uma reforma teria pouco impacto fiscal no curto prazo e descartou mudanças profundas no sistema atual. 

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Na sabatina, Haddad respondeu que Pochmann participou da elaboração do programa de governo do PT assim como “outras 300 pessoas participaram” e que o economista é um “professor, candidato a deputado federal e uma pessoa independente do ponto de vista intelectual”. Ele disse, ainda, que não queria desmerecer a contribuição de Pochmann, mas que o “programa que foi para o TSE foi validado por mim e pelo presidente Lula. Então, vale o que está escrito. Agora, as pessoas continuam tendo a opinião delas sobre outras coisas”.

Pochmann desagrada o mercado e pode ser colocado de lado por Haddad

As declarações levantaram a questão: quem manda no plano econômico do PT? Antes de Haddad ser confirmado como o candidato da sigla, Pochmann era apresentado como um dos coordenadores econômicos do partido na campanha ao Planalto, ao lado de Fernando Haddad, e falava em nome da campanha sobre propostas econômicas. Ao todo, 15 economistas participaram do processo de construção do programa de governo do PT.

Pochmann, porém, é um economista criticado pelo mercado. Ele tem doutorado em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defende uma linha de pensamento desenvolvimentista, que inclui forte presença do Estado na economia e aumento do investimento público, principalmente em infraestrutura, e estímulo ao consumo para fazer a economia crescer. Fórmulas que já foram usadas em governos anteriores do PT.

Haddad quer um economista moderado ao seu lado

Haddad, contudo, parece querer descolar do chamado petismo “mais radical”. Segundo a agência Reuters, o ex-prefeito de São Paulo quer, como ministro da Fazenda, se eleito, um nome moderado, próximo da academia e com boas relações com o mercado. Ele não colocaria um político no cargo. Entre os cogitados, segundo a agência, estão Samuel Pessôa e Marcos Lisboa.

Pessôa é um nome ligado à academia e, em 2014, participou da equipe econômica de Aécio Neves (PSDB) à Presidência. Ele é doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e, atualmente, professor da pós-graduação em economia da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro (FGV) e chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. 

É citado pela Reuters como um nome próximo a Haddad, inclusive tendo feito mestrado junto com o ex-prefeito. Pessôa, porém, não deixa de criticar o que chamou de “conversa de botequim” do seu colega. 

Em artigo publicado na Folha de São Paulo no domingo (16), criticou o fato de Haddad atribuir a recessão ao “fato de o PSDB não ter aceitado o resultado eleitoral” e elencou diversas ações dos governos petistas que levaram à crise econômica. “Mestre Bobbio ficaria ainda mais espantado com a dificuldade dos economistas de ‘esquerda’ com a aritmética”, escreveu Pessôa, sem se referir diretamente a Haddad, que é mestre em Economia pela USP.

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Já Marcos Lisboa é um nome mais conhecido do PT e próximo ao mercado financeiro. Ele foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda durante o primeiro governo Lula, de 2003 a 2005. Depois, partiu para o mercado e foi diretor-executivo do Itaú. Atualmente, é presidente do Insper, uma das principais faculdades privadas do país. Haddad é professor na instituição desde março do ano passado.

Questionado durante ato de campanha em Guarulhos (SP), na quarta-feira (19), Haddad desconversou sobre possíveis nomes e disse só vai começar a pensar na formação da equipe econômica no segundo turno. Mas afirmou que procura um ministro da Fazenda que tenha um perfil parecido com o seu e que quer um nome que seja pragmático, flexível, não sectário e com jogo de cintura, caso seja eleito.

Haddad ou Carneiro, quem fala de economia em nome da campanha?

Os nomes de Pessôa e Lisboa, porém, estão sendo cogitados para um eventual ministério da Fazenda petista. Até lá, ainda está em aberto quem responderá pela parte econômica do PT, já que Pochmman foi desautorizado pelo próprio Haddad. Procurado, o PT não respondeu a esse questionamento.

Uma opção é ser o próprio candidato, já que Haddad é economista e participou da formulação do programa de governo, além de ser o principal interlocutor de Lula, visitando semanalmente o ex-presidente na cela da Polícia Federal (PF) em Curitiba. 

Outra possibilidade é o economista Ricardo de Medeiros Carneiro. Ele representou o PT no programa Roda Viva, transmitido pela TV Cultura na segunda-feira (17). O programa entrevistou os economistas dos candidatos à Presidência.

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Carneiro participou da elaboração do programa de governo do Lula em 2002, quando o petista foi eleito presidente pela primeira vez. Agora, passou a ser apresentado pelo PT como um “dos principais consultores” do programa de governo de Haddad. Ele também representou a campanha no Fórum Exame 2018, realizado no dia 3 de setembro.

O economista, apesar de ser o porta-voz econômico do partido em algumas oportunidades, é o oposto da versão moderada que Haddad estaria procurando. Carneiro, assim como Pochmann, também é doutor em Ciência Econômica pela Unicamp e professor na universidade. É desenvolvimentista e defende, entre outras coisas, revogação do atual Teto dos Gastos e criação de um teto móvel, que permita aumento de gasto per capita em áreas essenciais; retomada de obras públicas; renegociação de dívidas de pessoas físicas; e fundo de financiamento, com dinheiro vindo das reservas internacionais, para o setor privado investir em infraestrutura. 

Outro lado

Procurados, PT e Marcos Lisboa não responderam aos questionamentos da reportagem até o fechamento desta matéria. Marcio Pochmann disse que prefere não se pronunciar. Samuel Pessôa falou que não tem conhecimento de nenhum convite para ser um eventual ministro de Haddad.

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