Negar legitimidade das urnas é receita para crise institucional, diz ex-Lava Jato

De saída da força-tarefa da Lava Jato, o procurador do Ministério Público Federal (MPF) Carlos Fernando Lima criticou a polarização criada na eleição presidencial e avaliou o papel da operação na política brasileira. Lima deixou a força-tarefa nesta semana, depois de quatro anos e meio de trabalho nas investigações, para voltar a atuar na Procuradoria Regional da República da 3.ª Região, em São Paulo.

Lima atendeu a reportagem da Gazeta do Povo no prédio da força-tarefa em Curitiba, na última quinta-feira (20), pouco antes de embarcar para São Paulo. O procurador, que é um crítico recorrente do sistema político brasileiro e já defendeu reformas políticas como saída da crise brasileira, falou sobre eleição, o futuro da democracia e o papel da Lava Jato no quadro atual brasileiro.

Para Lima, o resultado das eleições presidenciais será um teste para as instituições e para a própria democracia no Brasil. “Eu tenho esperança que a democracia e as instituições brasileiras sejam mais fortes. Mas nós vamos, qual seja o resultado, enfrentar um mar revolto”, disse.

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O motivo para a turbulência, segundo o procurador, é a polarização que tomou conta das eleições. De um lado, o PT lançou a candidatura de Fernando Haddad com o apelo de resgate aos tempos de Lula. De outro, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) se coloca como principal opositor do Partidos dos Trabalhadores e “contra tudo que está aí”.

“O que está acontecendo dos dois lados é uma deslegitimação do processo democrático. Então, se um lado [Bolsonaro] ganhar, vai ser porque o principal líder deles [do PT] está preso. Se o outro [Haddad] ganhar, vai ser porque as urnas estão fraudadas. Quer dizer, qualquer que seja o resultado, o outro lado vai negar a legitimidade e isto é uma das principais receitas para crises institucionais. E a população repete como papagaio certas coisas que nem lógica tem”, disse o procurador.

Haddad assumiu a candidatura no lugar de Lula, que está preso após ser condenado em segunda instância na Lava Jato. O partido insiste em tratar o caso do ex-presidente como prisão política. Do outro lado, Bolsonaro, que está internado depois de ser vítima de uma facada, tem questionado a segurança das urnas eletrônicas no país, dizendo que as eleições de outubro podem resultar em uma fraude – afirmação que já gerou reação de dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Dias Toffoli e Rosa Weber.

Para Lima, falta ao país figuras políticas capazes de inspirar a esperança para a saída da crise política e econômica em que o Brasil se afundou. “Nós não temos mais pessoas na política que nós admiremos e tenhamos como parâmetro de esperança”, lamenta o procurador. “Hoje você faz um esforço para suportar, achar um candidato. Nós nos perdemos em algum momento nesse processo de redemocratização”, critica.

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“Os discursos políticos parecem ter saído da década de 60. A modernidade passou longe da política brasileira. Nós estamos discutindo assuntos que são só compatíveis se nós tivéssemos regredido 50 anos. As rotulações são sem sentido. As rotulações que a direita faz, que a esquerda faz, são completamente destituídas de qualquer conteúdo intelectual, mera rotulação, mero xingamento”, diz Lima.

Lava Jato e a política

Para o procurador, a Lava Jato não pode ser responsabilizada pela situação política do país. “Investigar a maneira como a política se financia tem consequências, mas nós não fazemos parte dessa situação política e dessas escolhas”, diz. “A Lava Jato não tem papel nas escolhas políticas que as pessoas fazem. As pessoas podem até usar a Lava jato para justificar suas escolhas, mas essas escolhas têm motivos muito mais pessoais, baseados em preconceitos, em histórico pessoal e até em ideologia”, diz Lima.

O procurador não acredita, por exemplo, que os eleitores do PT sejam contra as investigações. “Muito do voto que hoje está no PT são de pessoas que estiveram melhor quando o PT estava no poder. Não é ideológico. É uma percepção sobre sua própria realidade. E eu não vou dizer que elas estejam erradas ou certas. Cada um tem que tomar sua decisão política”, afirma.

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Para o procurador, é importante que o país avance no combate à corrupção. “Nós estamos tão perto da mudança quanto do retorno. Estamos no meio do caminho. E o pior lugar para se estar é no meio do caminho porque se nós não formos para frente o cinismo vai imperar, o retorno do financiamento ilegal vai acontecer e a população ainda vai ficar mais descrente”, alerta Lima.

Aposentadoria

Lima pretende se aposentar em 2019. Por isso, deixou a operação Lava Jato nesta semana, para se afastar de informações sensíveis sobre as investigações. O procurador diz que ainda não tem certeza sobre o que fará depois de se aposentar e não descarta nem atuar na advocacia – só não em casos criminais, contra o Ministério Público.

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“É preciso esse afastamento das informações, do contato mais próximo com os amigos, porque eu preciso mostrar que existe uma forma ética de se afastar, ao contrário do que aconteceu recentemente com o procurador Miller”, diz Lima.

A referência é ao ex-procurador Marcelo Miller, que atuou na negociação do acordo de colaboração da J&F antes de deixar oficialmente a Procuradoria Geral da República. Miller foi denunciado pela PGR por corrupção.

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