Corrupção não impede eleição. Mas custa caro para envolvidos em escândalos

No ano eleitoral em que a corrupção foi um tema recorrente na campanha, a expectativa de boa parte dos eleitores e de integrantes da Operação Lava Jato é promover uma renovação sem precedentes no Congresso Nacional. Estudos mostram que políticos envolvidos em escândalos de corrupção têm menos chance de se reeleger para o Legislativo, mas a punição não vem diretamente do eleitor.

A corrupção é apontada atualmente como o maior problema no país em diversas pesquisas, mas, paradoxalmente, não é apontada como prioridade dos eleitores para o próximo governo. Pesquisadores da área indicam, inclusive, que a corrupção não tende a ser um fator determinante para o voto do eleitor.

No Legislativo, porém, as chances de reeleição de candidatos com o nome machado por escândalos de corrupção são menores. O pesquisador e cientista político Carlos Pereira explica que o mecanismo de punição não vem diretamente do eleitor, e sim dos financiadores de campanha.

“Ou seja, políticos envolvidos em corrupção para o Legislativo tiveram mais dificuldade de conseguir recursos das empresas porque as empresas não queriam associar o nome da empresa ao nome do político supostamente corrupto. Logo, eles tiveram menos recursos de campanha e apresentaram um pior desempenho eleitoral”, exemplifica.

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Para o cientista político da UnB, Lucio Rennó, quando um candidato enfrenta uma suspeita de corrupção, isso altera sua estratégia de organização de sua carreira e de como ele se projeta na arena eleitoral. Ele é um dos autores do estudo O Custo Político da Corrupção: Escândalos, Financiamento de Campanha e Reeleição na Câmara dos Deputados, que chegou à conclusão que gastos elevados de campanha atenuam o efeito negativo de escândalos.

“Esse candidato precisa aumentar e muito seu financiamento de campanha. Então o que a gente encontrou é o efeito encadeado do envolvimento no escândalo gerando uma redução na taxa de reeleição, exceto quando esse candidato consegue arrecadar muitos fundos eleitorais”, explica Rennó.

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Mudança no financiamento gera dúvidas sobre eleições de 2018

Até 2014, as empresas podiam fazer doações de campanha para candidatos a todos os cargos em disputa no Brasil. A partir de 2016, porém, o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas foi proibido e os políticos não vão poder contar com esses recursos em 2018. Ainda não é possível estimar, segundo os especialistas, o impacto da mudança na reeleição ou não de parlamentares envolvidos em escândalos.

“A gente não sabe como vai ocorrer isso, se os parlamentares envolvidos em escândalos de corrupção vão ser punidos pelo eleitor, uma vez que agora as empresas não podem mais fazer o serviço de não doar”, ressalta Pereira.

A força-tarefa da Lava Jato aposta que 2018 será um ponto de virada na política brasileira, que os eleitores serão capazes de fazer “uma limpa” e punir candidatos envolvidos em escândalos de corrupção. Procuradores do Ministério Público, inclusive, endossam uma campanha encabeçada pela Fundação Getúlio Vargas contra a corrupção, que propõe que candidatos endossem uma lista de medidas contra a corrupção a serem defendidas no Congresso na próxima legislatura.

“Se vai ser um ponto de virada ou não é muito difícil de avaliar, porque as últimas reformas que tivemos no nosso sistema político dificultam a renovação do Congresso, porque encurtaram as campanhas e campanhas curtas favorecem nomes conhecidos”, ressalta Rennó.

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Partidos mais envolvidos em corrupção têm mais dinheiro

As campanhas neste ano são financiadas com dinheiro público – distribuído entre os partidos de acordo com o tamanho das bancadas no Congresso – e com doações de pessoas físicas. “O financiamento público de campanha favorece a força dos partidos políticos e os partidos políticos que estiveram mais envolvidos nos escândalos recentes são os que vão concentrar mais recursos, porque são os maiores partidos no Brasil”, explica Rennó.

A consequência dessa distribuição de recursos pode ser a reeleição de deputados e senadores enrolados na Lava Jato. “Os deputados acabam tendo que gastar mais quando estão envolvidos em escândalos, até para desmentir os escândalos. Eles se defendem, eles apresentam argumentos e tentam dizer que são inocentes e são injustiçados. E às vezes, quando há um investimento maciço nisso, funciona”, completa Rennó.

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