Liberdade de expressão deve valer para esquerda e direita, defende Danilo Gentili

Humorista e apresentador do talk show líder de audiência nas madrugadas da TV aberta, Danilo Gentili apresentará seu espetáculo inédito “Politicamente Incorreto 2018” nesta quinta-feira (4), em Curitiba. O tema é uma velha marca de Gentili, sempre envolto em polêmicas por suas piadas, que costumam atrair a ira da esquerda e daqueles que, segundo Gentili, “estão de posse dos megafones e distintivos”.  A escolha da cidade para apresentar o show, que mira nos políticos às vésperas das eleições, também não é fortuita: Curitiba se tornou o centro do noticiário político do país desde 2014, com a Operação Lava Jato.

A Gazeta do Povo conversou com Gentili sobre liberdade de expressão – em junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente derrubou o dispositivo legal que proibia sátira de políticos em período eleitoral, que já estava suspenso por liminar desde 2010 –, sobre o papel que a sociedade civil deve ter na garantia desse direito e sobre dois novos projetos do humorista: um documentário sobre o tema e um Instituto de Liberdade de Expressão, que pretende patrocinar eventos e prestar assessoria jurídica a quem estiver tendo suas liberdades cerceadas. Ele afirma que o Instituto não tomará lado. “Não pretendo defender a liberdade de expressão apenas da direita em detrimento da esquerda”.

Convicção da Gazeta: Liberdade de Expressão

Gentili também falou à Gazeta do Povo sobre a mais recente controvérsia em que se envolveu: o compartilhamento equivocado, no Twitter, da foto de uma jornalista homônima a outra repórter que assinou uma reportagem sobre denúncias de ameaças de agressão de Jair Bolsonaro (PSL), candidato à Presidência, contra sua ex-mulher, hoje apoiadora do capitão da reserva. “Quanto mais transparentes ficam as coisas para todo mundo, melhor”, diz.

Confira a íntegra da entrevista:

Gazeta do Povo: Seu Show “Politicamente Incorreto 2018” não é o primeiro dessa natureza, seus programas batem nessa tecla e são um sucesso. Por que você acha que o politicamente incorreto faz tanto sucesso? 

Danilo Gentili: O politicamente incorreto faz sucesso em todo lugar, porque faz parte da natureza humana. O politicamente correto é que vai contra nossa essência. Hoje, ele tem esse nome, mas as pessoas se esquecem do que esse termo quer dizer. “Politicamente correto” quer dizer que existe uma corrente política que está querendo que você seja correto, mas segundo a vertente deles. As pessoas acabaram banalizando o termo: muita gente confunde o politicamente correto com não cometer gafes ou não ofender ninguém, mas não é disso que se trata. O politicamente correto se trata de um controle político específico. Se a gente dissesse que vive em uma “ditadura do religiosamente correto”, isso significa que existe uma hegemonia de uma religião no comando, dizendo que você só é correto seguindo aqueles dogmas. O politicamente correto é uma forma de controle, e a natureza do humor é ir contra isso. 

Como se dá essa tentativa de controle?

Isso se expressa pelas pessoas que estão hoje em posse dos megafones e dos distintivos. Uma pessoa sai da universidade e vai para uma redação de jornal, sai de um curso de teatro e vai para uma posição na mídia, sai do curso de sociologia e vai para uma posição de agente social, na política. Esses que são agentes sociais estão de posse dos distintivos, e os que vão para mídia estão de posse dos megafones. São uma minoria, mas como detêm a posse de um megafone, fazem barulho para parecer que representam o cidadão comum. Eu percebi isso anos atrás, quando inúmeras manchetes diziam que as pessoas reprovavam meu humor e, no mesmo dia, a fila para o meu show estava dobrando a esquina. Eles tentam se transvestir de opinião pública, mas a opinião pública não concorda com eles. 

Falando em distintivos, em relação à Justiça, havia aquele dispositivo da lei eleitoral que proibia a sátira de políticos. Ele estava suspenso desde 2010 [por decisão liminar do ex-ministro Ayres Britto] e foi declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em junho deste ano. Você acha que a Justiça brasileira caminha no sentido de deixar o humor mais livre?

Acredito que sim, mas ainda continua um absurdo. Primeiro que nem deveria existir um negócio desses. E, ainda que agora oficialmente a gente possa falar de político, não é bem assim. Ninguém está falando de político na TV. Existe aquele negócio que acaba criando uma falsa sensação de igualdade, mas que é bem patético: pode fazer piadas de políticos, mas se falar 5 minutos de um, tem que falar 5 minutos de outro. Se sai uma matéria sobre o [Jair] Bolsonaro (PSL), eu tenho coisa para falar 10 minutos [de piadas] do Bolsonaro, mas não tenho 2 minutos [de piadas] para falar do [Henrique] Meirelles (MDB), por exemplo. Eu tenho 10 minutos [de piadas] para falar do Lula (PT), mas não tenho 1 minuto [de piadas] para falar do Eduardo Jorge (PV). A legislação eleitoral engessa demais. Se você diz que pode fazer piadas com algumas condições, então você não está livre para fazer piadas. 

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Você anunciou recentemente que estava criando um Instituto Liberdade de Expressão e que logo daria mais notícias sobre ele. Esse projeto avançou? 

Avançou, sim. Já tenho mais duas pessoas comigo no Instituto. Eu não vou revelar os nomes deles agora. Estamos na fase de redigir o estatuto. Existe uma pessoa do jornalismo, eu sou da parte artística, e existe uma pessoa conceituada no meio jurídico. O Instituto não tem fim lucrativo, e a ideia é concentrar os esforços em situações em que a liberdade de expressão esteja sendo cerceada. No mínimo, queremos provocar mais debates sobre o tema, sempre posicionados fortemente contra qualquer restrição da liberdade de expressão. 

Vocês pretendem prestar assessoria jurídica também? 

Obviamente vamos começar de forma cautelosa, mas pensamos em produzir palestras, debates, e, claro, pensamos em prestar assessoria jurídica a quem não pode se defender. Um dos fundadores é um advogado e ele tem esse desejo. Queremos criar algo de credibilidade. Não pretendo defender a liberdade de expressão apenas da direita em detrimento da esquerda – a gente entende que se deve ter liberdade de expressão para a direita, tem que ter para a esquerda, tem que ter para todo mundo. 

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O que a sociedade civil pode fazer para ajudar a criar um ambiente a liberdade de expressão? 

Em uma viagem que eu fiz para os Estados Unidos, vi um cara descendo do carro e discutindo com o outro em uma briga de trânsito. Estavam brigando muito, mas um não encostava no outro. O que me parecia ali é que eles sabiam que eles poderiam falar o que quisessem um para o outro, mas que, se encostassem um no outro, aí não seria mais liberdade de expressão, estariam partindo para outro campo, que eu mesmo não defendo. O Instituto vai ter como missão defender a radical liberdade de expressão, até porque às vezes falo coisas idiotas, e depois eu me arrependo e amadureço. Mesmo que no calor do momento eu não admita, depois eu paro para pensar e isso me faz crescer.

A sociedade nunca pode se intimidar. Precisa discutir, falar, nunca deixar que um jornal, uma manchete, um conjunto de artistas digam que você não pode falar.

Então, até os idiotas têm que tem liberdade para falar idiotices, porque é assim que todo mundo amadurece os discursos e até o inconsciente coletivo. A sociedade nunca pode se intimidar. Precisa discutir, falar, nunca deixar que um jornal, uma manchete, um conjunto de artistas digam que você não pode falar. A melhor defesa que a sociedade pode fazer da liberdade de expressão é resistir à intimidação, porque não existe ditadura oficial, mas existe um organismo de intimidação muito grande, para que se crie uma espiral de silêncio e as pessoas não falem certas coisas. 

Por falar em intimidação, no dia 25 de setembro, uma reportagem sobre declarações que a ex-mulher do candidato Jair Bolsonaro (PSL) teria dado ao Itamaraty, alegando ameças a ela por parte dele, foi publicada. Logo surgiram no twitter denúncias de que uma das repórteres que fez a matéria era filha de alguém do PT, mas a foto era de outra jornalista, de Minas Gerais. Você compartilhou o tuíte da denúncia, depois o apagou e em seguida você retuitou uma mensagem avisando sobre confusão. Não é a primeira vez que isso acontece, essa exposição de jornalistas. Isso não contribui para uma cultura da intimidação? 

Não. O que eu acho importante fazer, e é uma coisa que já passei muitas vezes, é aprender a ler o jornal, quando você entende quem está escrevendo. Aqui no Brasil os jornalistas e os jornais se apropriam de um selo chamado “neutro”, e isso é uma trapaça com o leitor. Se você vai na TV americana, eles se assumem: a Fox é conservadora, a CNN é “liberal” [o equivalente no Brasil ao ‘liberal’ americano seria ‘progressista’]. Quando você assiste a um jornalista da CNN dando a sua opinião, você sabe o que está vendo, você está vendo um democrata falando sobre o Trump, falando sobre o Obama; quando você assiste a Fox, você sabe o que está vendo, você está vendo um conservador falando sobre o Obama ou sobre o Trump. Aqui — e eu já passei muito por isso — os jornalistas, grande parte deles, tentam imprimir neles mesmos uma aura de neutralidade, mas não são [neutros]. 

O jornalista vai lá, tira uma coisa de contexto, e eu começo a pensar: “Por que ele fez isso?” Ele não é burro, ele sabe que eu falei num contexto. Aí você vai pesquisar o jornalista e chega no Facebook e ele — que é neutro em um veículo neutro — está levantando bandeira de MST, falando “Lula Livre”. Eu não encorajo a intimidação, o que eu encorajo é a transparência. Saiba que este cara não é neutro, aprenda a ler a notícia. Nesse caso [da jornalista], eu achei estranho. Eu vi quem era, e era de fato uma militante. Só que os caras começaram a ir atrás de outra, aí eu postei a notícia do cara falando que era engano e apaguei [o tuíte], porque eu vi o que estava acontecendo. 

Mas, sabendo que na internet há milhões de pessoas vendo as postagens, que algumas pessoas são razoáveis, mas outras não são, você acha que essa é uma maneira adequada de expor o viés das pessoas? Liberar no Twitter uma postagem assim? Não haveria uma maneira melhor de fazer isso? 

Eu acho que as coisas devem ser equilibradas. A jogada é sempre esta: “Eu sou neutro e minha credibilidade é que eu sou neutro. E, se eu que sou neutro estou falando que o Lula é inocente, é porque é mesmo, porque eu não sou petista”. Isso eu considero desonesto. Já fizeram muito comigo, porque eles pegam o megafone deles e criam uma verdade a meu respeito. As pessoas também têm o direito de saber qual é o viés do cara. Eu não vejo problema nisso. Se ele publicou a ideologia dele no Facebook, então está pública. Ele pode falar, mas as pessoas podem ver que ele não é neutro. Quanto mais transparentes ficam as coisas para todo mundo, melhor.

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