OPINIÃO: À Espera das Novas Distopias ou das Novas Eutopias – o universo precisa de nós?

HELCIO RAYMUNDO

Há uma ampla discussão sobre os conceitos de utopia, distopia e ‘eutopia’, respectivamente, “lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos”; “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão”, desespero ou privação; e “espaço exterior materializado, percepcionado como suscetível de realizar os valores e aspirações locais” [1].

Tudo está relacionado ao termo grego comum ‘topos’, que quer dizer lugar, e ainda aos sufixos gregos ‘dys’ (dor e sofrimento), e ‘eu’ (bem, bom, belo). Mas a complicação se deu mesmo pelo uso deliberado do termo distopia por John Stuart Mill, economista liberal inglês, em 1868, como contrário de utopia, e não corretamente como lugar (topos) de dor e sofrimento (dys).

Com precisão britânica, Mike Ashley, escritor e pesquisador, explica:

“A palavra mais comumente usada para descrever o oposto da utopia é a ‘distopia’, embora, quando foi cunhada por John Stuart Mill em um discurso na Câmara dos Comuns em 1868, não era exatamente no sentido em que a usamos agora. Mill estava refletindo sobre a impossibilidade de estabelecer uma utopia porque a base de sua economia e desenvolvimento social estava sujeita a leis naturais que não podem ser influenciadas pela vontade humana, o que significa que todas as utopias têm uma inevitabilidade embutida de fracasso. Assim, ele descartou todos os pensadores utópicos como distópicos, porque suas ideias eram falhas demais para serem práticas.”[2]

A mais famosa de todas as obras literárias sobre distopia é 1984, de George Orwell. Escrito em 1949, e, embora o ano representado pelo livro esteja agora quase tão distante do nosso passado quanto do futuro de Orwell, ainda evoca imagens de um regime totalmente opressivo em que as pessoas não têm privacidade e individualidade. O romance ambienta-se em um dos três superestados totalitários globais, nos quais a população deve obedecer a um conjunto estrito de códigos, e é constantemente monitorada pelo ‘Big Brother’, sob os auspícios do ‘Ministério da Verdade’ e da sua ‘Polícia do Pensamento.’ Pensar fora dos códigos estabelecidos é punível. O personagem principal, Winston Smith, trabalha para o Estado, manipulando fotografias e revisando o registro histórico. Relacionamentos pessoais são proibidos, e assim, quando Smith se apaixona, é punido, forçado a trair sua amante e sofre lavagem cerebral para que volte a amar o ‘Big Brother’ acima de tudo e de todos.

Mas 1984 não foi a primeira construção de um mundo ‘distópico’ e nem será a última. Há distopias para todos os gostos e credos, no cinema, na literatura, no imaginário popular e na mitologia religiosa ou não. O interessante é que 1984, visto hoje por alguns como o resultado certo de regimes comunistas em expansão no mundo, rigorosamente é uma ficção relacionada a regimes totalitários de qualquer categoria, como atesta o próprio autor em carta endereçada em 16/06/1949 a seu amigo Francis A. Henson, membro do sindicato estadunidense United Auto Workers, destacando que:

“Meu romance recente (1984) NÃO foi concebido como um ataque ao socialismo ou ao Partido Trabalhista Britânico (do qual sou um entusiasta), mas como uma mostra das perversões… que já foram parcialmente realizadas pelo comunismo e fascismo. O cenário do livro é definido na Grã-Bretanha a fim de enfatizar que as raças que falam inglês não são intrinsecamente melhores do que nenhuma outra e que o totalitarismo, se não for combatido, pode triunfar em qualquer lugar.”[3]

Seja como for, as distopias impedem pensamentos mais largos e românticos, pois se opõem frontalmente às utopias, induzindo-nos a pensar ‘dentro da caixinha’ e são utilizadas (historicamente) como instrumentos de dominação. Os temores e medos da humanidade, alimentadores das distopias, vão mudando ao longo do tempo e do espaço. Se o homem pré-histórico tremia diante de relâmpagos e trovões, o homem contemporâneo morre de medo do terrorismo e da imigração nos países ditos desenvolvidos, e da violência urbana nas nossas plagas.

Mas o estoque de ameaças parece não ter fim: os novos impulsionadores das distopias podem vir a ser a inteligência artificial da indústria 4.0 afetando os empregos das classes médias mundiais, o persistente aumento da pobreza mundo afora e as consequências econômicas da mudança climática.

E como as pessoas reagem diante das distopias?

Assustadas, amedrontadas e, portanto, alinhadas ao conservadorismo econômico e de costumes, que de resto significa, em geral, retrocessos. Em países em desenvolvimento, ser conservador significa conservar a miséria, as mazelas, as desigualdades e a indústria de perpetuação da miséria e da ignorância. Em tempos de mudança, para ficar tudo igual ou pior, passarinho não pia e diz que está em período de muda, e ser progressista, então, vira sinônimo de ter bom-senso e vice-versa. Em tempos assim, a mera sobrevivência, com um mínimo de dignidade, torna-se um ato político da maior importância.

Não há situação nem oposição, não há apoio ou crítica, e o Marketing dita a ideologia da ‘realidade do momento’, nos dizendo o que comer, o que falar ou não falar, o que vestir e que santos vamos desvestir a cada tanto, quem vamos mitificar e quem vamos demonizar ou criminalizar.

Ainda que às grandes organizações parece que as pessoas mesmo consumindo e pagando impostos atrapalham, assim como a bola parece atrapalhar os grandes jogadores de futebol, a salvação (da lavoura, inclusive) se dará pela tecnologia, num mundo maravilhoso e de abundância [4], no qual não existem contradições aparentes, que é para não prejudicar nosso sono de consciências tranquilas de cúmplices da civilização romana judaico-cristã ocidental tão bondosa, mas capaz de escravizar, subjugar e abjurar seus próprios semelhantes. É uma nova eutopia que, dialeticamente, se opõe à todas as distopias.

No transporte público, a UITP (União internacional dos Transportes Públicos), por exemplo, parece abraçar a eutopia da tecnologia e parece abrigar a ‘disrrupção’ da mobilidade tradicional, imaginando não vir a ser tragada pelos novos ‘players’, como se as novidades não fossem um cavalo de troia dos tempos contemporâneos. Afinal o que querem as ‘Hide-Hailing’ e as ‘Transportation Network Companies’ (TNC), entendidas como provedores de serviços de mobilidade (MSP), promovendo o encontro entre passageiros com motoristas por meio de sites e aplicativos móveis, se não introduzir cunhas nos sistemas atuais de mobilidade urbana, inicialmente de forma parasitária e semiclandestina (ganhando muito dinheiro), para depois absorver todo o mercado com complacência (se não anuência e até alívio) de certos poderes públicos, operadores e fabricantes de veículos e de equipamentos? [5]

O mercado da mobilidade do futuro poderá ser mais do que privado, pois existe a possibilidade de não haver necessidade de intermediários, de regulamentação pública, de freios e contrapesos. A Mobilidade como Serviço (MaaS, em Inglês) poderá ter como gestor um ente privado impessoal, provedor absoluto, livre de qualquer tipo de controle social. As lacunas, deficiências, defeitos, problemas e acidentes ficarão escondidos sob os algoritmos, como é a internet atual, e serão tratados internamente [6]. 

Nos confins da periferia do capitalismo, na África e partes da Ásia, e na nossa América Latina, nos ora alegres e agora tristes trópicos, continuamos reativos a esperar inovações a cada ciclo de licitação dos serviços de transporte coletivo das grandes cidades brasileiras, que cada vez mais inovam menos e se isolam, como se o deixar ficar para ver como é que fica (‘antiplanejamento’) nos levasse ao paraíso. São lamentáveis os não avanços conquistados, mas pior, não há sinalização para o futuro e tampouco parece que os processos licitatórios estejam ancorados em políticas públicas. 

Enquanto este artigo estava sendo escrito, a marcha da insensatez caprichava na sua rota de desqualificação da política, guarnecida pela ignorância e defesa de interesses menores da coisa pública, ao ‘tecnificar’ a política, ou politizar excessivamente a técnica, usando aspectos rotineiros de ações operacionais comezinhas do dia a dia: a Prefeitura de São Paulo (PMSP) determinou “que os usuários do vale-transporte (valor pago por empregadores a seus funcionários) terão agora três horas para fazerem até dois embarques nos ônibus municipais da SPTrans, pagando apenas uma tarifa (hoje, de R$ 4,30)” [7], contra a sistemática atual que permite que os passageiros usem o Bilhete Único com vale-transporte para embarcar em até quatro ônibus, durante duas horas. Mesmo que a Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP) alegue que a quantidade de prejudicados é baixa (minimização de danos), teme-se pela ‘desnecessidade’ de investir na rede de transporte público, pois seu efeito parece ser desprezado pelos governantes de plantão, o que poderia nos levar, por exemplo, a extinguir a integração física, operacional, tarifária e institucional. ‘É a economia, estúpido!’, dirão os zelosos dirigentes municipais, ao que se poderia propor o retrocesso de termos somente linhas radiais, todas necessariamente passando pelo centro e ninguém se integrando com ninguém, que tal? A culpa é e será sempre do povo, que tem essa estranha mania de querer andar de ônibus de graça…

Mas a marcha prossegue. No dia seguinte, agora uma sandice dupla, pois unem-se PMSP e Governo do Estado de São Paulo, anunciando a requentada ideia de conceder as Marginas à iniciativa privada. A despeito das Marginais desempenharem mal e porcamente o papel a que elas lhes foi erroneamente atribuído, os estrategistas dos governos municipal e estadual não se deram conta ainda, ou fingem fazê-lo, que se o planejamento urbano fracassa, a metrópole fracassa com ele. ‘Planejamento urbano, que será isso?’, coisa de comunistas, utopia…

Para não dizer que o foco é só São Paulo, no dia seguinte do dia seguinte, dois trens se chocam no Rio de Janeiro, produzindo feridos graves, operados por uma empresa privada que já foi privatizada mais de uma vez. Como explicar choque de trens no final da segunda década do século XXI? O que fazer com uma empresa assim? Reprivatizá-la, mais uma vez, ou ‘reestatizá-la’, de novo? Alias, o que vem depois da privatização? O juízo final?

Assim, com ou sem utopias, ‘distopais’ ou ‘eutopias’, mas sem o reconhecimento da realidade como ela é, o trafego de veículos produzirá mais externalidades e os sistemas de transporte urbano público e coletivo continuarão caros, insustentáveis e de qualidade desigual e questionável, valendo menos do que aquilo que por eles se paga e oferecendo menos do que a nova mobilidade de redes sociais evoca.

Por fim, cabe destacar o que Alexei Dodsworth, pesquisador ítalo-brasileiro, expressa, em posicionamento que merece algum tipo de reflexão:

Dentre todas as características que favorecem distopias, a maior delas me parece ser o nosso empenho em converter o planeta em um lugar inóspito para nós mesmos. Quando se diz que estamos destruindo o planeta, eu costumo corrigir, e respondo que não estamos. O que nós estamos destruindo são as condições que nos permitem viver bem neste planeta. Somos capazes de extinguir a nós mesmos e a muitos outros animais, mas a vida continuaria a existir, ainda que apenas na forma de bactérias extremófilas. Afinal, o que é distópico para nós pode perfeitamente ser eutópico para uma bactéria que adora radiação, como a Deinococcus radiodurans. Ou para baratas. Se isso vier a ocorrer (e talvez já tenha ocorrido inúmeras vezes ao longo da galáxia, em outras épocas e civilizações), o universo não sentirá a nossa falta.”[8]

Diante de tudo, fica verdadeiramente uma última pergunta: será que o universo precisa mesmo de nós?

Helcio Raymundo – Engenheiro, Mestre em Transportes e Consultor. Membro da ANTP


NOTAS

[1] Dicionário Online de Português. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/>. Acesso: 25 de fevereiro de 2019

[2] ASHLEY, Mike. Freedom or oppression? The fear of dystopia. British Library, Discovering Literature: 20th Century. 2016. Disponível em: <https://www.bl.uk/20th-century-literature/articles/freedom-or-oppression-the-fear-of-dystopia>. Acesso: 26 de fevereiro de 2019

[3] ORWELL, George. The Collected Essays, Journalism, and Letters of George Orwell: In front of your nose, 1945-1950. Harcourt, Brace & World, 1968

[4] DIAMANDIS, Peter H.; KOTLER, Steven. Abundance: The future is better than you think. Simon and Schuster, 2012

[5] GE, Yanbo et al. Racial and gender discrimination in transportation network companies. National Bureau of Economic Research, 2016

[6] CALLEGATI, Franco et al. Cloud-of-Things meets Mobility-as-a-Service: An insider threat perspective. Computers & Security, v. 74, p. 277-295, 2018

[7] (Diário do Transporte/Brasil. Bruno Covas atualiza regras do Bilhete Único na cidade de São Paulo. 23/02/2019, 09:14. Disponível em: <https://diariodotransporte.com.br/2019/02/23/bruno-covas-atualiza-regras-do-bilhete-unico-na-cidade-de-sao-paulo/>. Acesso: 27 de fevereiro de 2019)

[8] [DODSWORTH, Alexei. Futuro sem perspectiva? Distopia atual é achar que o autoritarismo é normal, diz escritor de ficção científica. Rede Brasil Atual (RBA): 22/10/2017. Entrevista concedida a Helder Lima. Disponível em: <https://www.redebrasilatual.com.br/revistas/133/a-distopia-segundo-o-escritor-alexey-dodsworth>. Acesso: 26 de fevereiro de 2019]

Mais em https://diariodotransporte.com.br/2019/03/08/opiniao-a-espera-das-novas-distopias-ou-das-novas-eutopias-o-universo-precisa-de-nos/



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